Textos Brasileiros

 

ATRIBUTOS DO ADMINISTRADOR BEM-SUCEDIDO

AMAURY DABUL٭

Logo após terminar de proferir a Aula Magna de abertura das atividades de um curso de Administração de Empresas, um jovem aluno, que ali iniciava sua vida universitária, levantou o dedo sinalizando que queria dar um aparte ou fazer uma indagação. Naquele evento que envolvia uma solenidade festiva, não era previsto qualquer período de debates. Entretanto, sem titubear, na qualidade de conferencista, demos a palavra ao jovem, fugindo do protocolo da cerimônia, porque já tínhamos observado que ele, sentado na primeira fila, por todo tempo irradiava um entusiasmo contagiante.

Esse jovem, sem maiores delongas e com a objetividade de sua faixa etária, apresentou o cerne de sua curiosidade:

- Qual é o atributo mais importante para um Administrador ser bem-sucedido?

Em mais de três décadas de experiências em conferências com debates, em ambientes de todos os níveis de cultura, respondendo a questões de todos os tipos e complexidades, confessamos que fomos surpreendidos com a singeleza dessa pergunta.

Apesar de sua simplicidade, nos obrigou a profunda reflexão, que teve que ser feita em poucos segundos. Não tínhamos de pronto uma resposta padrão para essa inusitada e imprevista pergunta.

Não poderia deixar de dar uma rápida e boa resposta naquele auditório repleto, com cerca de 200 alunos de todas as turmas e de professores das diversas áreas de conhecimentos envolvidas no curso de Administração de Empresas.

Na literatura pertinente não é difícil encontrar citações e profundas análises sobre as qualidades que um profissional deve ter para um bom desempenho, em termos de eficácia e eficiência, nas funções inerentes ao Administrador em todos os níveis hierárquicos e nos diversos tipos de organizações.

Mas, enumerar dezenas de qualidades para bem desempenhar suas funções é bem menos complexo que afirmar qual o atributo mais importante para um Administrador ser bem- sucedido.

Ainda bem que a intuição e imaginação do ser humano, no hemisfério direito do cérebro, se processam na velocidade de 106 a 107 bits/s, enquanto que a razão, no hemisfério esquerdo, tem a velocidade de somente 40 bits/s.

O processo da intuição ou o da imaginação fundamenta-se primordialmente na experiência das pessoas acumulada no subconsciente e no inconsciente. E foi das profundezas do cérebro que aflorou na razão um excelente exemplo de pessoa bem-sucedida que pudemos acompanhar em sua ascensão na vida profissional. Sempre o consideramos como a pessoa mais bem-sucedida que conhecemos, apesar de não ser dotado de muitas das ortodoxas e acadêmicas qualidades que um bom Administrador deve ter.

O excelente desempenho em todos os cargos que ocupou, e que testemunhamos, foi devido ao atributo que possuía em alto grau: sabia escolher os componentes de sua equipe de trabalho. Não possuir as qualidades tradicionais, fato amplamente reconhecido pelos seus pares, em nada prejudicou a alta eficácia sempre demonstrada.

Com este posicionamento, bem fundamentado na razão, em poucos segundos pelo veloz processamento da intuição e imaginação, respondemos à indagação formulada pelo jovem universitário, afirmando que o principal atributo que um Administrador deve ter para ser bem-sucedido é: talento para formar equipe. Com essa idéia-força, durante cerca de cinco minutos, analisamos com diversos enfoques a pergunta formulada e a resposta objetiva dada. Aparentemente, pelas palmas recebidas, todos gostaram da resposta, menos o conferencista.

Enquanto discorria na resposta e após o término da solenidade, continuando a mentalizar a pergunta, cada vez mais nos convencíamos que, para um Administrador ser bem-sucedido, também eram necessários outros atributos. Somente saber formar equipe, por si só, com certeza não garantia qualquer sucesso na dinâmica da administração.

O sentimento que tivemos era que nosso cérebro processava informações como o gado fica ruminando o capim que já está em seu estômago para poder digeri-lo.

Nossa incômoda insatisfação com a resposta então dada somente se desvaneceu quando nos conscientizamos de que havia mais três atributos que não poderiam deixar de ser considerados e, ainda, hierarquizados acima do mencionado na resposta ao jovem.

O primeiro atributo é: mentalidade holística. Nenhum Administrador será bem-sucedido tendo sua visão restrita, setorial ou mesmo global. Holística, do grego holos que não tem tradução em português, possui um significado que vai além do global. Enquanto uma fotografia panorâmica nos dá uma visão global de uma paisagem, uma filmagem da mesma paisagem nos fornece uma visão holística, mostrando, também, a interação das partes, além da visão global. A mentalidade holística permite ao Administrador ter a capacidade de enfocar sistemicamente a estrutura organizacional sob sua responsabilidade. Isto é fundamental para ser bem-sucedido.

  Outro atributo é: visão do futuro. Lucius Annaeus Seneca (4a.C,/65d.C.) nos legou o ensinamento “Não existe vento favorável para quem não sabe para onde vai ...”. O Administrador, para ser bem-sucedido, tem que bem formular os objetivos a perseguir. É o pressuposto para racionalizar suas atividades no planejamento para o exercício da administração científica. Sem isto, a mediocridade do seu desempenho é inevitável. Sinteticamente, entenda-se como visão do futuro a "conscientização, pelo ser humano ou por um grupo social, de um cenário prospectivo, onde suas necessidades apresentam-se satisfeitas, necessidades estas existentes ou previsíveis e que consubstanciam seus interesses e aspirações, em dado momento".

O terceiro atributo que faltava é: disposição para assumir riscos. Decisão é a função que mais expõe um Administrador. Não só pelo acerto desejado, mas, principalmente, pela sua oportunidade. Toda decisão importa em assumir riscos. A decisão não oportuna, ou mesmo a simples indecisão, é pior que uma decisão errada oportunamente tomada. Muitos esquecem, ou não se dão conta, que volitivamente não decidir já é uma decisão e encerra os normais riscos que intencionalmente não desejavam assumir. Quem se acovarda quando deve assumir riscos com certeza nunca será bem-sucedido.

Por fim, recolocamos agora como quarto atributo: talento para formar equipe. Este foi o atributo que detonou todo o processo cognitivo que nos motivou a explorar o assunto.

Continuando a ruminar essas idéias, certamente encontraremos outros atributos tão ou mais importantes que os acima discriminados. Este tema tem desdobramentos, com certeza!


* Dr. Amaury Dabul é Administrador

 Titular da Academia Brasileira de Ciência da Administração

Coordenador-Geral do Sistema de Planejamento da Ação Governamental de Município

Presidente da ONG/OSCIP Alavancando o Progresso