Logo após terminar
de proferir a Aula Magna de abertura das atividades de um curso de Administração
de Empresas, um jovem aluno, que ali iniciava sua vida universitária, levantou o
dedo sinalizando que queria dar um aparte ou fazer uma indagação. Naquele evento
que envolvia uma solenidade festiva, não era previsto qualquer período de
debates. Entretanto, sem titubear, na qualidade de conferencista, demos a
palavra ao jovem, fugindo do protocolo da cerimônia, porque já tínhamos
observado que ele, sentado na primeira fila, por todo tempo irradiava um
entusiasmo contagiante.
Esse jovem, sem
maiores delongas e com a objetividade de sua faixa etária, apresentou o cerne de
sua curiosidade:
- Qual é o
atributo mais importante para um Administrador ser bem-sucedido?
Em mais de três
décadas de experiências em conferências com debates, em ambientes de todos os
níveis de cultura, respondendo a questões de todos os tipos e complexidades,
confessamos que fomos surpreendidos com a singeleza dessa pergunta.
Apesar de sua
simplicidade, nos obrigou a profunda reflexão, que teve que ser feita em poucos
segundos. Não tínhamos de pronto uma resposta padrão para essa inusitada e
imprevista pergunta.
Não poderia deixar
de dar uma rápida e boa resposta naquele auditório repleto, com cerca de 200
alunos de todas as turmas e de professores das diversas áreas de conhecimentos
envolvidas no curso de Administração de Empresas.
Na literatura
pertinente não é difícil encontrar citações e profundas análises sobre as
qualidades que um profissional deve ter para um bom desempenho, em termos de
eficácia e eficiência, nas funções inerentes ao Administrador em todos os níveis
hierárquicos e nos diversos tipos de organizações.
Mas, enumerar
dezenas de qualidades para bem desempenhar suas funções é bem menos complexo que
afirmar qual o atributo mais importante para um Administrador ser bem- sucedido.
Ainda bem que a
intuição e imaginação do ser humano, no hemisfério direito do cérebro, se
processam na velocidade de 106 a 107 bits/s, enquanto que
a razão, no hemisfério esquerdo, tem a velocidade de somente 40 bits/s.
O processo da
intuição ou o da imaginação fundamenta-se primordialmente na experiência das
pessoas acumulada no subconsciente e no inconsciente. E foi das profundezas do
cérebro que aflorou na razão um excelente exemplo de pessoa bem-sucedida que
pudemos acompanhar em sua ascensão na vida profissional. Sempre o consideramos
como a pessoa mais bem-sucedida que conhecemos, apesar de não ser dotado de
muitas das ortodoxas e acadêmicas qualidades que um bom Administrador deve ter.
O excelente
desempenho em todos os cargos que ocupou, e que testemunhamos, foi devido ao
atributo que possuía em alto grau: sabia escolher os componentes de sua equipe
de trabalho. Não possuir as qualidades tradicionais, fato amplamente reconhecido
pelos seus pares, em nada prejudicou a alta eficácia sempre demonstrada.
Com este
posicionamento, bem fundamentado na razão, em poucos segundos pelo veloz
processamento da intuição e imaginação, respondemos à indagação formulada pelo
jovem universitário, afirmando que o principal atributo que um Administrador
deve ter para ser bem-sucedido é: talento para formar equipe. Com essa
idéia-força, durante cerca de cinco minutos, analisamos com diversos enfoques a
pergunta formulada e a resposta objetiva dada. Aparentemente, pelas palmas
recebidas, todos gostaram da resposta, menos o conferencista.
Enquanto discorria
na resposta e após o término da solenidade, continuando a mentalizar a pergunta,
cada vez mais nos convencíamos que, para um Administrador ser bem-sucedido,
também eram necessários outros atributos. Somente saber formar equipe, por si
só, com certeza não garantia qualquer sucesso na dinâmica da administração.
O sentimento que
tivemos era que nosso cérebro processava informações como o gado fica ruminando
o capim que já está em seu estômago para poder digeri-lo.
Nossa incômoda
insatisfação com a resposta então dada somente se desvaneceu quando nos
conscientizamos de que havia mais três atributos que não poderiam deixar de ser
considerados e, ainda, hierarquizados acima do mencionado na resposta ao jovem.
O primeiro
atributo é: mentalidade holística. Nenhum Administrador será bem-sucedido tendo
sua visão restrita, setorial ou mesmo global. Holística, do grego holos que não
tem tradução em português, possui um significado que vai além do global.
Enquanto uma fotografia panorâmica nos dá uma visão global de uma paisagem, uma
filmagem da mesma paisagem nos fornece uma visão holística, mostrando, também, a
interação das partes, além da visão global. A mentalidade holística permite ao
Administrador ter a capacidade de enfocar sistemicamente a estrutura
organizacional sob sua responsabilidade. Isto é fundamental para ser
bem-sucedido.
Outro atributo
é: visão do futuro. Lucius Annaeus Seneca (4a.C,/65d.C.) nos legou o ensinamento
“Não existe vento favorável para quem não sabe para onde vai ...”. O
Administrador, para ser bem-sucedido, tem que bem formular os objetivos a
perseguir. É o pressuposto para racionalizar suas atividades no planejamento
para o exercício da administração científica. Sem isto, a mediocridade do seu
desempenho é inevitável. Sinteticamente, entenda-se como visão do futuro
a "conscientização, pelo ser humano ou por um grupo social, de um cenário
prospectivo, onde suas necessidades apresentam-se satisfeitas, necessidades
estas existentes ou previsíveis e que consubstanciam seus interesses e
aspirações, em dado momento".
O terceiro
atributo que faltava é: disposição para assumir riscos. Decisão é a função que
mais expõe um Administrador. Não só pelo acerto desejado, mas, principalmente,
pela sua oportunidade. Toda decisão importa em assumir riscos. A decisão não
oportuna, ou mesmo a simples indecisão, é pior que uma decisão errada
oportunamente tomada. Muitos esquecem, ou não se dão conta, que volitivamente
não decidir já é uma decisão e encerra os normais riscos que intencionalmente
não desejavam assumir. Quem se acovarda quando deve assumir riscos com certeza
nunca será bem-sucedido.
Por fim,
recolocamos agora como quarto atributo: talento para formar equipe. Este foi o
atributo que detonou todo o processo cognitivo que nos motivou a explorar o
assunto.
Continuando a
ruminar essas idéias, certamente encontraremos outros atributos tão ou mais
importantes que os acima discriminados. Este tema tem desdobramentos, com
certeza!
* Dr. Amaury Dabul é Administrador
Titular da Academia Brasileira de Ciência da Administração
Coordenador-Geral do Sistema de Planejamento da Ação
Governamental de Município
Presidente da ONG/OSCIP Alavancando o Progresso