BRASILEIROS DE HOJE

 

 

 

 

Este espaço estará reservado para a divulgação de matérias enviadas para o Brasil Brasileiro. Semanalmente serão selecionados escritos que  exemplifiquem o comportamento do brasileiro contemporâneo.

Recebemos permissão para divulgar matérias dos sites NO MÍNIMO e COLUNAS/ JBONLINE, onde colunistas competentes analisam diariamente o cenário nacional. Mais do que isso: fazem a História Brasileira. O BRASIL BRASILEIRO, após contato com os responsáveis pelas colunas, resolveu que a melhor forma de prestigiar o trabalho por aqueles colunistas desenvolvidos, é expô-los neste espaço, como legítimos representantes dos BRASILEIROS DE HOJE.

 Quinzenalmente, também são selecionadas e reproduzidas matérias que evidenciem o comportamento político-histórico do atual governo.

 

O conteúdo é de inteira responsabilidade do Autor da matéria.


Brincando com fogo

João Mellão Neto
 

Militares não são cidadãos comuns.  A simples circunstância de que têm como dever arriscar a vida pela Pátria já faz deles pessoas diferenciadas.

Desde o início da civilização, já se tornou senso comum a necessidade de que a cultura militar  - seus valores, convicções e regras de conduta - deve ser diversa da que rege os civis.  Ninguém, em sã consciência, enfrenta voluntariamente a eventualidade da morte sem ter fortes razões
para fazê-lo.  Para os soldados, acima da própria vida, há que existir valores tais como a honra pessoal, o sentimento incondicional do dever, a defesa a qualquer custo da Pátria e, muito importante, uma exaltação de espírito permanente.

É por esta razão que os militares despendem boa parte de seu tempo em paradas, desfiles e marchas, embalados por hinos marciais, portando estandartes e bandeiras e bradando a plena voz palavras de ordem e lemas próprios à sua função.  A obediência cega à hierarquia e disciplina extremamente rígida são princípios basilares  - e não poderia ser de outra forma -  de toda e qualquer organização com fins militares.  Não se admitem tolerâncias nem liberalidades.  Sem a obediência cega às ordens
superiores e um comportamento impecável se torna impossível formar uma tropa em condições mínimas de enfrentar forças inimigas e, eventualmente, vencê-las. 
 

Os brasileiros, em geral, são avessos à ordem, à lei e à autoridade.  O “jeitinho brasileiro” é uma instituição nacional.  O “modo Macunaíma de ser” está impresso no nosso DNA cultural.  Mais uma razão para que nas Forças Armadas tais características sejam fortemente reprimidas e o senso do dever seja incutido com maior severidade.

Todo este preâmbulo se justifica para demonstrar a gravidade das primeiras atitudes do presidente Lula no enfrentamento da rebelião dos sargentos controladores de vôo.  Em estado de guerra, tal motim deveria ser reprimido com toda a força, seus participantes imediatamente, presos e os responsáveis seriam submetidos a corte marcial e fuzilados sem clemência.

Ora, dirão alguns, não estamos vivendo uma guerra e o sistema de controle de vôo não deveria ser predominantemente militar (cerca de apenas um quarto dos controladores de vôo, no Brasil, são civis.)

Não sou contrário à desmilitarização do sistema de controle de vôo.  Na maioria dos países desenvolvidos este serviço é exercido por civis e tudo funciona bem.

O fato é que, no Brasil, a rebelião ocorreu num momento em que o controle de vôo ainda está subordinado à Aeronáutica, seus operadores são sargentos e, portanto, sujeitos ao regimento militar.  Sendo assim, não se trata de uma simples greve, mas de um gravíssimo motim.  E não se negocia nada com militares amotinados.
 

Lula não atentou para as seriíssimas conseqüências de seu modo sindical de agir e ordenou a seus ministros que fossem negociar com os rebelados. Estes, para resolver o problema, acenaram com o que não podiam: não-punição para os amotinados e aumento salarial para todos.  A Presidência da República, constitucionalmente, não pode fazer nem uma coisa nem outra.

Os sargentos estão sujeitos ao Código Penal Militar e são julgados pelo Superior Tribunal Militar, um órgão do Poder Judiciário.  Eles acabarão por ser severamente punidos.  Até para servir de exemplo e evitar que novos focos de rebelião contaminem todas as Forças Armadas.  A única saída para esse impasse seria a aprovação, pelo Congresso Nacional, de uma anistia para os revoltosos.  Isso é improvável que ocorra.

 

Quanto ao aumento salarial, ele é impossível.  Se os sargentos controladores de vôo recebessem uma majoração em seus soldos, ela teria de ser estendida, segundo a lei, a todos os sargentos das três Forças Armadas.  Isso, além de altamente oneroso, faria os sargentos passarem a ganhar mais do que os tenentes, seus superiores imediatos.  O resultado final é que todo o oficialato das três Forças teria de receber um aumento salarial proporcional ao dos sargentos.

A única saída, em médio prazo, seria a passagem do sistema de controle de vôo para a alçada civil, com o conseqüente desligamento dos sargentos dos quadros da Aeronáutica.  Mas isso leva tempo e é uma operação muito mais complexa do que aparenta.  Como separar os serviços de defesa aérea  - que
devem ser mantidos na esfera militar -  dos serviços restritos à aviação civil?
 

Lula foi devidamente enquadrado pelos comandantes militares.  O comandante da Aeronáutica chegou a ameaçar acionar o Supremo Tribunal Federal para abrir um processo de impeachment do presidente por crime de responsabilidade.  E base jurídica ele tinha de sobra para fazê-lo.

A crise acabou contornada porque nosso incauto presidente voltou atrás, derramou-se em declarações de apreço à hierarquia militar e tachou os amotinados de traidores e irresponsáveis.  Ele não precisava passar por mais esse vexame.  Bastaria que algum assessor o tivesse orientado sobre os graves desdobramentos que sua atitude de negociar traria.  Infelizmente, Lula já demonstrou que escolhe muito mal a sua assessoria.

O último governante que ousou incentivar a insubordinação dos quadros inferiores das Forças Armadas foi João Goulart.  E ele acabou sendo deposto logo a seguir.

          Com as Forças Armadas não se brinca, em especial porque elas são forças e, ainda por cima, armadas.

 

Como dizia o filósofo Dahrendorf, as instituições de uma nação são como cabos de alta tensão:  à primeira vista são inofensivos, mas basta tocar neles para sofrer terríveis conseqüências.  Lula não sabia disso e acabou estorricado.

    Como reza a sabedoria popular, quem só entende metade de um problema acaba sendo devorado pela outra metade...

 

João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi  deputado federal, secretário e ministro de Estado
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"DELENDA CARTAGO EST"
Marco Pórcio Catão (234 – 149 a.C.) 

 

 

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