BRASILEIROS DE HOJE

 

 

 

 

Este espaço estará reservado para a divulgação de matérias enviadas para o Brasil Brasileiro. Semanalmente serão selecionados escritos que  exemplifiquem o comportamento do brasileiro contemporâneo.

Recebemos permissão para divulgar matérias dos sites NO MÍNIMO e COLUNAS/ JBONLINE, onde colunistas competentes analisam diariamente o cenário nacional. Mais do que isso: fazem a História Brasileira. O BRASIL BRASILEIRO, após contato com os responsáveis pelas colunas, resolveu que a melhor forma de prestigiar o trabalho por aqueles colunistas desenvolvidos, é expô-los neste espaço, como legítimos representantes dos BRASILEIROS DE HOJE.

 Quinzenalmente, também são selecionadas e reproduzidas matérias que evidenciem o comportamento político-histórico do atual governo.

 

O conteúdo é de inteira responsabilidade do Autor da matéria.


MARCHANDO COM BABÁ

Guilherme Fiúza

 

17.08.2005 |  Há um bom naco da opinião pública, ou da sociedade, ou que nome tenha essa entidade que se move em grandes blocos numa mesma direção, que só topa emoções fortes. Só surfa no pico. Seria interessante se uma pesquisa qualitativa reencontrasse um daqueles grupos que achavam Lula a saída para todos os males – e consideravam o eleitor de Serra um canalha. No mesmo bairro, faixa etária, classe social, aquele grupo hoje provavelmente quer Lula no olho da rua.

Uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que a senadora contra tudo isso que aí está Heloísa Helena tem 13% de intenções de voto para presidente da República. O grosso de seu potencial eleitorado não está no povão, está na universidade. Com menos de dois meses de Governo Lula, quando ainda nem dava para ver que o Fome Zero era uma fraude, boa parte desses esclarecidos já se declaravam decepcionados com o novo presidente. Eles gostaram de ver Lula chorando na posse – o operário chegou lá! – mas queriam ver um presidente do Banco Central de calça arregaçada passeando na favela.

É uma gente predominantemente educada, que está sempre do lado errado da expectativa. Na hora da partida, o Governo Lula não dava motivos para maus prognósticos, nem por parte dos eleitores de José Serra. O líder máximo petista assumia após dar um show de maturidade e equilíbrio na transição – planejada com o governo anterior em lance de elevada responsabilidade pública. Não pela política A ou B, apenas pela postura de colaboração mútua e abertura de informações.

A estrutura básica do governo também não dava margem à desconfiança. O moderado e preparado Antonio Palocci na Fazenda, o incisivo e articulador José Dirceu na Casa Civil. Dirceu é um político absolutamente preparado para tocar um governo. Tem conhecimento bastante amplo dos problemas nacionais nos vários setores e boa percepção de conjuntura para atacá-los. Caiu em desgraça por ser, acima de tudo, um tarado pelo poder. Acabou desviando suas energias para a arrecadação desenfreada de dinheiro para seu grupo político, e para o plantio de raízes deste grupo no aparelho de Estado.

A saída da penumbra do despachante Waldomiro Diniz, um tomador de dinheiro nomeado por Dirceu como segundo homem da Casa Civil, já era suficiente como escândalo. As baforadas cínicas e arrogantes do inacreditável Delúbio, dizendo que o Banco do Brasil tinha bancado sim – e daí? – 70 mil reais em ingressos para um show do PT, era pornografia mais do que suficiente. Mas todos ficaram tranqüilamente a salvo, porque a tal opinião pública não ligou. Não ligou porque ainda não estava passando a onda grande, essa em que todos gostam de pular juntos.

As pessoas que achavam Lula, um brasileiro de origem pobre, a solução redentora para os problemas nacionais, são as mesmas que se comoveram com o choro patético do presidente operário na posse. Enfim um governante humano, pensaram. Pois era justamente aí que estava a semente do descaminho. Quando Ciro Gomes xingou um ouvinte de burro na campanha presidencial, e foi duramente criticado por isso, respondeu que era um ser humano e também tinha sentimentos. O problema é que um homem público, um representante da sociedade, não está ali para ser intempestivo como qualquer um de seus representados. Um mínimo de frieza e equilíbrio, acima das doses do homem comum, é obrigação de qualquer comandante.

Saturnino Braga era tão honestamente puro e identificado com o homem comum que faliu a Prefeitura do Rio de Janeiro por falta de capacidade administrativa. Lula acreditou que se sustentaria apenas nessa busca do homem comum no homem público. Não precisava nem dar entrevistas, nem despachar decentemente com seus ministros, nem fazer política com os líderes do Congresso. Bastava ir para o meio do povo, jogar futebol, dar tapinhas nas costas. E chorar. Este foi seu erro mais grave, despercebido por seus antigos súditos e novos algozes – que provavelmente se comoveram com a choradeira da bancada do PT “ético” na Câmara dos Deputados. Estão absolutamente todos desculpados pelas lágrimas, é disso que o povo gosta.

Lula continua sendo o que sempre foi. Um político importante para a história do Brasil, um grande símbolo, uma personalidade que se impregnou dos anseios de vários setores da sociedade e tornou-se um legítimo representante dela. Estava na cara que seria um governante fraco, por sua visão precária como homem de Estado. Deixou isso claro de saída. Mas poderia ter liderado um bom governo, se os seus Grazianos, Dilmas, Berzoinis e Gushikens tivessem levado para lá alguma idéia do que fazer. Chegaram de mãos abanando, e isso evidentemente é também um erro de Lula.

Mas nada que se compare à onda furiosa dessa estranha decepção, estranha porque súbita e desmedida. Lula cultivou Dirceu, que cultivou Delúbio e seus métodos valerianos. Lamentável, punam-se os responsáveis. Pode ser também que o caixa dois para Duda Mendonça permita a hipótese legal do impeachment. Mas quem sair às ruas atrás do trio elétrico de João Batista Babá, Heloísa Helena e do seu vale de lágrimas e palavras de ordem pelo banimento do presidente, pode duplicar sua decepção no futuro. Basta esperar a chegada dos arrivistas ao poder, para descobrir como eram bons os tempos do sapo barbudo.


fiuza@nominimo.ibest.com.br

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