A
DEMOCRACIA DO SENADOR
por
Marli
Nogueira
em 24 de abril de 2008
Resumo: O Senador Arthur
Virgílio precisa rever os seus
conceitos de democracia. Ela
certamente não guarda relação
alguma com o que o termo
verdadeiramente significa.
© 2008 MidiaSemMascara.org
Que democracia é essa que o
senador Arthur Virgílio defende?
Desde quando um cidadão
brasileiro, seja ele civil ou
militar, não pode manifestar sua
opinião sobre as decisões que o
governo vem tomando? Será que o
imposto que o General Heleno
paga é inferior ao que pagam os
demais brasileiros? Será que em
um país onde juízes se
manifestam até mesmo sobre
assuntos que posteriormente irão
julgar, colocando-se
aprioristicamente a favor desta
ou daquela parte, um general de
exército, que não advoga
ideologia alguma, é obrigado a
calar-se diante dos desmandos de
um governo para o qual a
democracia está apenas no
discurso? Será que o ilustre
senador (que se autoproclama
"oposicionista") não percebe que
o Comandante Militar da
Amazônia, sabendo dos
gravíssimos problemas existentes
naquela região, tem não apenas o
direito, mas também o dever de
alertar a sociedade? Ou será que
o senador, no conforto de seu
gabinete, conhece mais os
problemas da Amazônia do que o
general que a comanda? E se os
conhece, por que não alerta, ele
próprio, a sociedade - já que é
Senador exatamente pelo Amazonas
-, ao invés de ficar quietinho
enquanto se espolia, às
escâncaras, a região mais rica
do planeta? Como se justifica o
seu silêncio?
Não é de hoje que essa questão
de demarcação de terras
indígenas vem preocupando os
brasileiros de bom senso. Que há
interesses escusos por trás
dessas demarcações, não há a
menor dúvida. Ninguém, em sã
consciência, iria destinar uma
extensão tão vasta para índios
(sem falar nos quilombolas), e
de forma contínua, propiciando
até mesmo a formação de uma
futura "nação" independente, se
não enxergasse nisso uma
vantagem pessoal. Principalmente
em um governo que se tornou
campeão em corrupção e
maracutaias.
Um problema como esse, se
surgido em países de pequena
extensão territorial, como a
Suíça ou a Áustria, certamente
já teria posto em rebuliço a
sociedade inteira. Mas no
Brasil, onde o que acontece em
Xapuri dificilmente é conhecido
por quem reside em Passo Fundo,
ele assume proporções mínimas
porque o povo simplesmente não
consegue dimensionar a sua
gravidade.
O importante não é dar
tratamento "democrático" para
índio. O importante é tratar
igualmente os brasileiros, sejam
eles índios, brancos, negros,
pardos, homens ou mulheres. Mas
a partir do momento em que um
único brasileiro é impedido de
adentrar terras indígenas, como
se estivesse entrando em um país
estrangeiro, então é claro que
estamos diante de uma grave
violação constitucional ao
direito de ir e vir. Daqui a
pouco vão exigir passaporte para
que um brasileiro transite por
uma área indígena, o que é um
rematado absurdo.
Segundo noticiado na imprensa, o
Brasil possui cerca de 300 mil
ONGs, sendo um terço delas na
Amazônia. A maioria dessas ONGs
é de origem estrangeira, com
claros interesses na riqueza
daquela região, onde abundam
minérios valiosíssimos, madeiras
de lei, vegetação exuberante
(inclusive de plantas
medicinais), águas limpas e
copiosas, animais exóticos, tudo
isso sendo alvo da cobiça
internacional. Não é à toa que
volta e meia alguém é flagrado
no comércio internacional de
jacarés, cobras, aranhas,
insetos raros, pássaros,
madeiras e outras preciosidades
daquela área.
Se mesmo sem a tal demarcação o
Brasil já é (e sempre foi)
fortemente surrupiado de seus
tesouros na Amazônia, de onde
escorrem milhões de toras de
madeira e outras matérias-primas
para empresas estrangeiras, sob
as barbas complacentes do
governo, imaginem então a
possibilidade de que isso seja
feito em uma área tão grande
onde nenhum brasileiro pode
entrar porque se trata de uma
reserva "democraticamente"
destinada a índios?
Também chama a atenção a
flagrante contradição de nossos
ideólogos: ao mesmo tempo em que
defendem a manutenção da cultura
indígena, clamam pela "inclusão"
dos índios na sociedade,
sustentando que eles também têm
direito ao ensino universitário,
a contas bancárias, a serviços
de telefonia e outros benefícios
típicos da civilização, por
questão de "justiça social" e de
observância de "princípios
igualitários". Ora, de duas uma:
ou se mantêm os índios
exatamente como são, para
"preservar" sua cultura, ou
então se lhes dêem todas as
vantagens da vida em
civilização. Só o paradoxo do
discurso já deixa margem para
que se imagine que tais
demarcações nada têm de
filantrópico ou democrático,
constituindo, ao contrário, mais
uma das maracutaias a que o
brasileiro, infelizmente, parece
já ter-se acostumado.
O fato é que o General Heleno é,
sem a menor sombra de dúvida, o
oficial da ativa mais abalizado
para escancarar aos brasileiros
os gravíssimos problemas que
ocorrem na Amazônia, já que é
ele quem comanda aquela região e
a conhece melhor do que ninguém.
E mais: não se pode apontar um
único interesse do general em
sua fala que não seja o de
defender o Brasil para os
brasileiros, sem distinção
alguma. Sem ideologias.
Os brasileiros devem se sentir
orgulhosos com a fala do
General, que, é bom dizer, já
recebeu uma avalanche de
manifestações de apoio às suas
palavras. Enquanto os ideólogos
que nutrem o governo com teorias
esquerdopatas que acabam
dividindo o Brasil em várias
"nações" - de índios, de negros,
de quilombolas, de homossexuais,
de homens, de mulheres, de
proprietários, de
não-proprietários, de ricos e de
pobres -, o General se volta, ao
contrário, para uma
única Nação, formada
por todos os brasileiros,
independentemente de qualquer
traço que os distinga. Isso nada
mais é do que a democracia em
sua inteireza.
É preciso lembrar, ademais, que
nos termos do art. 142 da
Constituição Federal, "As
Forças Armadas, constituídas
pela Marinha, pelo Exército e
pela Aeronáutica, são
instituições nacionais
permanentes e regulares,
organizadas com base na
hierarquia e na disciplina, sob
a autoridade suprema do
Presidente da República, e
destinam-se à defesa da Pátria,
à garantia dos poderes
constitucionais e, por
iniciativa de qualquer destes,
da lei e da ordem".
Destarte, quando a soberania da
pátria está em perigo, quando os
poderes constitucionais entram
em conflito e quando se percebe
a supremacia do caos sobre a
ordem, todo militar, seja ele um
general ou não, tem o
dever de cumprir sua
missão. E uma delas é de,
inicialmente, alertar a
sociedade, exatamente como fez o
General Heleno.
O Senador Arthur Virgílio
precisa rever os seus conceitos
de democracia. Ela certamente
não guarda relação alguma com o
que o termo verdadeiramente
significa.
Marli Nogueira
A autora é Juíza do Trabalho em
Brasília.