16.04.2006 |
O
procurador
Antônio
Fernando
de Souza
botou o
país de
pernas
para
baixo e
cabeça
para
cima.
Dito
assim,
soa
estranho.
Mas é
que não
estamos
mais
acostumados
a ver o
Brasil
como um
lugar
onde as
coisas
possam
acontecer
normalmente.
E com a
denúncia
que ele
mandou
ao
Supremo
Tribunal
Federal
as
coisas
ficaram
mais
claras.
Tão mais
claras
que nem
o
presidente
Lula,
que até
a semana
passada
pisava
nos
rastros
distraído,
pode
continuar
a fazer
de conta
que não
sabe o
que
aconteceu.
Caixa
dois de
campanha
uma ova.
Tecnicamente,
o que
seu
governo
fez foi
organizar
uma
quadrilha.
Ela
roubou e
corrompeu
para
financiar
“um
projeto
de
poder”.
O chefe
da
quadrilha
era o
ex-ministro
José
Dirceu,
que até
cair de
podre no
ano
passado
comandou
o bando
de um
gabinete
instalado
no
palácio
do
Planalto,
a
caverna
de Lula.
E o
chefe do
chefe
era
Lula, o
“nosso
guia”dos
40
ladrões,
como
entendeu,
em cima
do laço,
o
humorista
Chico
Caruso.
Ao
resumir
em 122
páginas
a crise
do
mensalão,
a
denúncia
do
procurador
geral da
República
tornou
claro o
que,
antes,
quem não
queria
entender
achava
confuso.
Dividiu
o
problema
ao meio.
Entregou
a parte
complicada
aos
ministros
do
Supremo
Tribunal
Federal,
que só
começarão
a
resolvê-la
lá pelo
ano que
vem. Em
outras
palavras,
pelo
governo
que vem.
E
depositou
a parte
simples
nas mãos
dos
brasileiros,
que
daqui a
seis
meses
terão
que
escolher
o
próximo
presidente
da
República
numa
campanha
em que
Lula é,
ao mesmo
tempo,
um
candidato
viável à
reeleição
e um
candidato
sério ao
impeachment.
Nesta
ordem. E
isso,
como o
próprio
Lula
gosta de
dizer,
nunca
aconteceu
na
história
deste
país.
Aliás,
dificilmente
terá
acontecido
na
história
dos
outros
países.
Graças a
essa
inegável
singularidade
do
governo
Lula,
pelo
mais
enviesado
dos
caminhos,
o Brasil
voltou
de
repente
a ser o
país do
futuro.
Um lugar
onde a
experiência
não
conta,
porque o
passado
não tem
nada
para
ensinar
ao
presente,
obrigando
os
eleitores
a
extrair
das
urnas a
solução
de um
problema
que elas
não
foram
feitas
para
resolver.
Ou seja,
um
processo
de
impeachment
agendado
neste
mandato
para o
seguinte.
Não faz
tanto
tempo
assim,
quando
os
políticos
não
dependiam
de
marqueteiros
ou
institutos
de
opinião
pública
para
adivinhar
os
humores
do
eleitorado,
dizia-se
que
brasileiro
não
votava
em
político
bichado.
Perdoava
os
piores
pecados
na vida
pública.
Mas era
incapaz
de
gastar
voto num
candidato
que, na
vida
propriamente
dita,
não
tivesse
com cara
de
chegar
ao fim
do
mandato.
Doença
coronariana,
por
exemplo,
os
políticos
preferiam
esconder
a
tratar,
para não
correr o
risco de
que o
prontuário
médico o
denunciasse
como
voto
posto
fora.
Lenda ou
superstição,
essa
crença
matou
muita
gente
boa. O
senador
Petrônio
Portela
morreu
assim,
deixando
o
coração
estourar
em
segredo
para não
perder a
pose de
sucessor
civil do
presidente
Ernesto
Geisel,
mesmo
se, no
caso, o
eleitorado
assistisse
à
sucessão
de
longe.
O
presidente
eleito
Tancredo
Neves
morreu
sem
tomar
posse,
mas não
deixou o
país
perceber
a tempo
os
sintomas
de
infecção
intestinal
que o
mataram.
Ele,
como
Petrônio,
não
dependia
do voto
popular.
Mas,
como
Petrônio,
pelo
sim,
pelo
não,
achou
melhor
não
brincar
com
coisa
séria.
E, para
ambos,
nada
podia
ser tão
sério
quando
uma
disputa
presidencial.
Mas para
que
cutucar
os
fantasmas
se a
eleição
de 2006
não tem
precedente?
Graças à
revolução
política
da era
Lula,
pela
primeira
vez na
história
deste
país os
brasileiros
têm a
chance
de
decidir
nas
urnas se
vale a
pena
votar
num
presidente
que já
tem um
encontro
marcado
com o
processo
de
impeachment
no
mandato
que vem.
É uma
escolha
difícil.
Mas pelo
menos o
procurador
Antônio
Fernando
de Souza
tornou-a
explícita.
E o
Brasil
ficará
lhe
devendo
para
sempre
este
grande
favor.