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Editorial

Ufa!  O presidente Evo Morales concluiu sua visita a Brasília e o Acre ainda é brasileiro.  Não que o governo brasileiro não tenha cedido, mas só porque a Bolívia não pediu o território de volta.  De resto, tudo o que o presidente Evo Morales pediu - e, em alguns casos, exigiu -, obteve.

E com isso confirma-se o que já escrevemos nesta página inúmeras vezes: quando se trata da Bolívia, o governo Lula sempre faz o oposto do que diz que faria.

Há dias, quando o presidente Morales e seus ministros ameaçaram cancelar a viagem a Brasília se o governo brasileiro não se comprometesse antes a aumentar o preço do gás comprado pela Petrobrás, o Itamaraty reagiu, como sempre, energicamente.  A atitude de Morales era uma "infantilidade" e refletia o "amadorismo" da política externa boliviana.  Além disso, "paciência tem limite".  De fato.  O ex-cocalero deve estar, agora, rindo a bandeiras despregadas dos maduros profissionais da diplomacia brasileira.  Levou para casa, entre outros troféus, um aumento no preço
do gás equivalente a US$ 100 milhões anuais.  Nada mau para um amador.

Há pelo menos nove meses o governo brasileiro vinha afirmando que a revisão do preço do gás era assunto a ser resolvido tecnicamente entre a Petrobrás e a YPFB, não cabendo uma solução política, como pleiteava Evo Morales.  A Petrobrás, por sua vez, só admitia discutir ajustes nos termos do contrato - ou seja, antes de 2010 não haveria aumento e, no interregno, o preço poderia flutuar acompanhando o preço internacional de uma cesta de combustíveis.  A dois dias da chegada de Morales, a ministra Dilma Rousseff declarava que o preço pago pela Petrobrás "está bem
compatível com o preço praticado no mundo".  O contrato, portanto, não seria "ferido".

Uma breve conversa entre os presidentes Lula e Morales mudou tudo isso.  Numa decisão obviamente política, fez-se um artifício contratual.  O gás a ser fornecido pela Bolívia passará a conter mais 300 Kcal por metro cúbico e por isso a Petrobrás pagará um aumento que varia de 3% a 6%, resultando, segundo cálculos bolivianos, em US$ 100 milhões anuais.  A Petrobrás ainda vai fazer os cálculos de quanto custará a generosidade - pormenor que revela como foi improvisada a decisão e define de que lado está o amadorismo - ou a irresponsabilidade.

A Petrobrás, que havia suspendido os investimentos na Bolívia por causa da instabilidade criada pelo governo Morales, agora retomará um projeto de construção de um pólo gás-químico na fronteira, ao custo de US$ 3 bilhões.  O Brasil financiará a construção de estradas e de uma unidade de biodiesel.  E o presidente Lula, que já fez uma doação em dinheiro à Bolívia, anunciou que, em março, levará mais recursos de presente.

O presidente Lula deu a mesma explicação de sempre para as concessões feitas a seu colega boliviano: o Brasil precisa ser "generoso" com os vizinhos.  Afinal, "não somos os imperialistas que alguns dizem que somos.  Não somos hegemônicos como alguns querem que sejamos".  O problema é que, dominado pela preocupação de ser generoso e não parecer imperialista e hegemônico, o atual governo se esquece de proteger os interesses brasileiros.

É, por exemplo, um completo contra-senso, do ponto de vista dos interesses nacionais, o compromisso que o presidente Lula assumiu com Morales de acelerar o processo de integração plena da Bolívia ao Mercosul, com a agravante de postular tarifa zero para a linha tarifária daquele país.  (A Bolívia quer integrar-se plenamente ao Mercosul sem assumir as obrigações da Tarifa Externa Comum, mantendo-se filiada ao regime da Comunidade Andina.) Além disso, Evo Morales já
declarou que, "se a Bolívia entrar no Mercosul, será para fazer profundas reformas no Bloco", e nisso acompanhou seu mestre, Hugo Chávez.  Ou seja, o Mercosul será, para Morales, apenas uma plataforma para o processo de autarquização da economia boliviana e a divulgação de suas originais idéias políticas.  Se com o ingresso da Venezuela o Mercosul praticamente fechou portas e janelas para fazer acordos comerciais com as economias mais dinâmicas do mundo, com a adesão da Bolívia, patrocinada por Lula, a obra se completará.

Como sempre faz depois de atender aos pedidos de Evo Morales, o presidente Lula fez uma advertência: "Nem sempre poderei atender a todas as demandas.  Precisamos agir como chefes de Estado." Não anunciou quando assumirá as funções.

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OESP + O GLOBO- 16/FEV/07

Resista, presidente!
Luiz Felipe Lampreia
 

Ao pensar na visita de Evo Morales ao Brasil, recordei -me de uma frase do embaixador Antonio Azeredo da Silveira, que foi um grande ministro das Relações Exteriores do Brasil na década de 70.  Em um dos comentários que o fizeram famoso pela originalidade e agudeza das imagens que usava, disse Silveira : "Trata-se de um toureirinho de 1 metro e vinte dando um passeio num touro de 800 quilos." Esta é exatamente a situação das relações entre o Brasil e a Bolívia.

Pensa-se muitas vezes aqui em nosso país que Morales é um índio ignorante e primitivo.  Ignorando a sagacidade de um homem que passou de pastor aimara de lhamas e produtor de folhas de coca a presidente da República, ressaltam-se sua falta de experiência administrativa e o lado folclórico de sua postura.  Mas, o que temos visto desde que ele foi eleito, há mais de um ano, é um líder muito hábil em manejar os símbolos de seu povo, preservando assim uma imensa popularidade (as sondagens lhe dão índices incríveis de aprovação) em El Alto e La Paz.  Ora, aí está concentrada a maioria urbana dos indígenas aimara e quéchua que, desde o ano 2000, assumiu um protagonismo inédito na vida política boliviana e levou à derrocada das presidências
de Gonzalo Sanchez de Lozada e de Carlos Mesa.
 

Quem controla essas duas cidades do Altiplano boliviano, tem o poder nas mãos e não precisa se preocupar muito com o resto do país.  É o caso de Evo Morales.  Não se
deve subestimá-lo.
 

O governo brasileiro talvez não o subestime, mas certamente não interpreta bem o líder boliviano.  Quando ele manda o Exército ocupar à força os campos da Petrobras, nosso governo diz que ele tem todo o direito e o trata como algo próximo do carinho.

Quando ele sobe o tom das exigências, segue para a Bolívia o embaixador Samuel Guimarães com uma mala cheia de bondades, como se Morales fosse um daqueles índios a quem os portugueses de Pedro Álvares Cabral apaziguavam com espelhinhos e bugigangas.  Quando o governo boliviano assinou em dezembro uma novo contrato com a Petrobras, o nosso celebrou a conquista, decretou a felicidade geral e anunciou novos grandes investimentos na Bolívia.  É óbvio que, em nenhum dos casos, o toureirinho saiu perdendo.

Agora mesmo estamos assistindo ao questionamento do novo contrato pelo qual a Petrobras pagaria menos impostos do que estava pagando na transição.  Atualmente, a Bolívia contesta o que tinha sido caracterizado pelo nosso lado, com alguma ingenuidade, como "uma base sólida que nos dá segurança jurídica".  Com isso, vai arrecadando mais dinheiro e segue a "faena" que estonteia o touro brasileiro.

É verdade que o Brasil não se sente ainda confortável no papel que hoje desempenha de maior parceiro comercial e grande investidor em numerosos países vizinhos.  No passado já distante, quando não havia ainda maiores interesses em jogo, o relacionamento com os nossos irmãos sul-americanos já era delicado.  O Brasil sempre foi diferente na região pela sua origem monárquica, pela sua forma de alcançar a independência, por sua origem portuguesa, por ter-se mantido unido.  Por isso, desde 1870 , valorizamos a diplomacia e o direito internacional como instrumentos
virtualmente únicos de relacionamento.

O Barão do Rio Branco levou esta política ao seu apogeu definindo para sempre nossas fronteiras.  Mas desde que temos grandes apostas econômicas, o jogo se alterou e nós ainda não aprendemos a jogá-lo, pelo menos como governo.

Há uma hesitação em defender as legítimas causas de nossas empresas, com receio de parecermos imperialistas.  Ora, é obrigação do governo defender seus cidadãos e suas empresas quando estão fora do Brasil e são alvo de arbitrariedades ou injustiças.  O que ocorreu na Bolívia é exemplar.

Há mais de dois anos, era previsível para quem tivesse um mínimo de informação que uma onda nacionalista acabaria atingindo a Petrobras. O governo brasileiro nada fez para proteger nossa maior empresa.  O resultado foi o que se viu.

O governo de Evo Morales continua a implementar sua estratégia de enfraquecimento da posição brasileira.  Certamente recebe conselhos e recursos do coronel Chávez e de Fidel Castro, de quem é discípulo dileto.

Cada vez que a difícil política interna boliviana ameaça complicar-lhe a vida, Evo sai-se com mais um fogo de artifício e nacionaliza alguma coisa.  Não tenho dúvidas de que vai tomar as refinarias da Petrobras e talvez mesmo os campos de gás.

Seguramente vai usar todos os recursos para pressionar por uma revisão "política" do preço do gás e vai delongar o quanto puder a confirmação do novo contrato com a Petrobras.  Com isso, ganha popularidade onde lhe interessa e contribui para o esforço global de Chávez, que é afirmar sua liderança continental enfraquecendo seu maior rival: o presidente do Brasil.

Agora, depois de muito negacear e ameaçar com o cancelamento da visita, Evo Morales veio ao Brasil para obter o reajuste do preço do gás. Ora, preço de gás não é assunto para presidentes, nem é matéria para barganhas políticas.  É questão comercial que deve ser definida por parâmetros técnicos e de mercado, após negociação entre autoridades competentes.

Esperemos que o governo brasileiro continue a deixar este tema à Petrobras, apoiando-a, e resista às novas pressões bolivianas.  Esperemos sobretudo que o presidente Lula perceba as verdadeiras dimensões da questão e possa interromper o processo de erosão de nossa posição regional, adotando o tom altaneiro e firme, embora sempre sereno, que se impõe.
 

Se repetir apenas a posição tíbia e inconfortável que exibiu antes com Evo Morales, o Brasil sairá perdendo.  E o toureirinho terá conseguido mais um olé.

LUIZ FELIPE LAMPREIA foi ministro das Relações Exteriores (1995 a 2001).
 


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