SEM FORÇAS ARMADAS MOTIVADAS, O QUE SERÁ DO
BRASIL?
"Ao contrário do que os brasileiros pensam, a
Amazônia não é só deles, mas de todos nós."
(Al Gore, ex-vice-presidente americano, Prêmio
Nobel da Paz de 2007 e grande estrela da mídia
como "defensor do meio ambiente")
Ao debruçar-me com a devida responsabilidade
sobre as políticas públicas para as Forças
Armadas, não posso esconder minha perplexidade.
Você não tem uma idéia da sucessão de erros que
projeta um buraco gigantesco num amanhã bem
próximo. A permanecer a tendência atual, daqui a
pouco não será fácil encontrar quem queira
servir às Forças Armadas, tal a baixa
competitividade dos seus vencimentos, em todos
os escalões, e a falta de condições
operacionais, fatores que afetam em cheio a
dignidade de um segmento envolto numa mística e
em compromissos que vão além da paixão e dos
deveres profissionais.
Eu diria que essa coleção de equívocos e até de
imprudentes solapamentos ganhou uma configuração
mais nítida a partir da criação do Ministério da
Defesa, segundo o modelo norte-americano, que
acabou confiando o conjunto dos complexos
assuntos militares a pessoas sem a necessária
vivência dos mesmos, sem compreensão estratégica
do papel militar e sem o conhecimento e cultura
indispensáveis a respeito.
Um desastre após outro
O resultado dos últimos anos tem sido um
desastre após outro, com a triste rotina de uma
verdadeira queda de braços - humilhante porque,
na hora de botar a boca no mundo, como é da
essência da sociedade democrática, os militares
precisam se valer de suas esposas, dos inativos
ou recorrer a subterfúgios como doar sangue para
expressar seu descontentamento.
Esse quadro deprimente produz um tipo de
confronto silencioso, mas de ardilosa
manipulação. Para qualquer um contingenciado
pela disciplina, uma de suas místicas mais
sagradas, toda essa indiferença à sua sorte tem
conteúdo ideológico. É como se ele estivesse
sofrendo a revanche de situações preteridas.
As aflições e os nervos à flor da pele engendram
a idéia de que tudo não passa de uma conspiração
de esquerda para reduzir a tropa a um estamento
simbólico. Isso escamoteia a verdade
"verdadeira". Está em prática uma "nova
doutrina", alimentada pelas grandes
multinacionais, especialmente os sistemas
financeiros, a partir do fim da guerra fria e do
fracasso dos beligerantes de ambos os lados, em
face de fatores críticos novos e diferenciados,
sobretudo pela mudança do viés da
supranacionalidade e do avanço da tecnologia,
com a superposição do segmento econômico de
serviços sobre os industriais e agropastoris.
O Estado Mínimo
Para entender o que se passa em relação aos
militares brasileiros, é preciso partir da
análise do "Consenso de Washington" e de outras
teses, que incluem a idéia do "Estado Mínimo", o
fim das fronteiras nacionais e uma espécie de
rearrumação do sistema de poder, que na prática
já acontece com a interatividade internacional
dos investimentos especulativos. Você pode se
posicionar em relação às aplicações na Bovespa a
partir das primeiras informações sobre o
desempenho das bolsas asiáticas, num ritual que
já subtrai sem constrangimento a independência
dos centros nervosos da economia de cada país.
Isso quer dizer claramente: a macro-economia
internacional engendrou outros referenciais e
hoje não se pode dizer que esse ou aquele país
nos ameaça. As hidras que se infiltram sobre
nossos territórios não estão sujeitas a
controles de nenhum país, de nenhum governo.
São grandes complexos econômicos que podem pagar
às melhores cabeças e produzir controles
remotos, robôs, tudo o que precisam para refazer
o mapa do mundo.
Depois que descobriram as serventias do
"terceiro setor", essas ONGs com discursos
direcionados, os cabeças desses complexos
concluíram, a partir de estudos científicos, que
precisam bancar a miniaturização das Forças
Armadas nos países alvos.
Mais do que qualquer outro país, o Brasil
precisa de uma política militar sólida e
fortalecida, independente dos outros, tanto pela
dimensão do nosso território, a extensão das
nossas fronteiras, como, principalmente, pela
camuflada ocupação estrangeira de nossa maior
riqueza, a Amazônia, e da necessidade de
proteger nossa "Amazônia Azul" - os 7.491
quil6ometros de fronteira marítima, que formam a
gigantesca Área Marítima Jurisdicional (onde
dispomos de grandes reservas de petróleo), de
4.451.766 km2, mais da metade (52%) do
território continental, de 8.511.965 km2.
A necessidade de um complexo militar em
condições de cumprir suas funções de defesa vai
muito além dos fantasiosos conflitos entre
nações.
E exige uma revisão urgente, sem matizes
ideológicos, porque o somatório de erros poderá
ser fatal para a soberania do Brasil e para a
vida da sociedade brasileira. Esses erros
começam pelo virtual aniquilamento do serviço
militar obrigatório, de tanta importância para
nossa juventude sem rumos, até o desprezo pelo
conhecimento, a dedicação e o patriotismo
inerentes à vida na caserna.
Do jeito que as coisas estão indo, até os cursos
superiores das Forças Armadas, que se incluem
entre os melhores do continente, vão acabar
tendo sua finalidade deturpada: em vez de
formarem oficiais especializados, vão acabar se
convertendo, como já acontece pontualmente, em
produtores de profissionais altamente
qualificados para as grandes multinacionais que
pagam muito mais.
Nessa faina impatriótica de desmotivação dos
militares, os interesses "ocultos" jogam com
feridas não cicatrizadas e visões primárias de
tecnocratas delirantes, os quais escondem da
sociedade um perigoso vexame: segundo fontes
merecedoras de crédito, a FAB só consegue operar
com 37% de seu poder aéreo e todos seus aviões
têm mais de 15 anos de uso. Na Marinha, de toda
sua frota, apenas 10 navios estão em condições
de combate.
No Exército a sucatagem bélica é ainda maior.
Segundo levantamento, por falta de
investimentos, o Programa Nuclear Brasileiro já
provocou um prejuízo de US$ 1,1 bilhão. Os
equipamentos de artilharia são semi-obsoletos e
estão em péssimo estado de conservação,
sujeitos, inclusive, a um racionamento de
combustível e à falta de peças.
Diante de um quadro de
ostensiva depreciação do Estado e, dentro dele,
de sua estrutura militar, é responsabilidade de
todos, independente de ódios internalizados,
procurarem entender o que realmente está por
trás dessa trama, algo que faz do Brasil
continental um dos países com menor participação
dos gastos em defesa no seu PIB - menos de 1,6%
contra 3% da média mundial, uma ninharia se
considerarmos os 5% do Poder Judiciário e os
3,98% do tal superávit primário - as restrições
orçamentárias para pagar os juros da dívida.
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