Do Jornal Extra de Alagoas:
http://www.extralagoas.com.br/noticia.kmf?noticia=6173007&canal=335
Carta aberta ao Senador Renan Calheiros
(Mendonça Neto)
"Vida
de gado. Povo
marcado. Povo feliz."
As vacas de Renan dão
cria 24 h por dia.
"Haja capim e gente besta
em Murici e em Alagoas!
Uma qualidade eu admiro em você: o
conhecimento da alma humana. Você sabe manipular
as pessoas, as ambições, os pecados e as fraquezas. Do menino ingênuo que fui
buscar
em Murici para ser deputado estadual em 1978, que acreditava na pureza
necessária de
uma política de oposição dentro da ditadura militar, você, Renan Calheiros,
construiu uma trajetória de causar inveja a todos os homens de bem que se
acovardam
e não aprendem nunca a ousar como os bandidos.
Você é um homem ousado.
Compreendeu, num determinado momento, que a vitória não
pertence aos homens de bem, desarmados desta fúria do desatino que é vencer a
qualquer preço. E resolveu armar-se. Fosse qual fosse o preço, Renan Calheiros
nunca
mais seria o filho do "seo" Olavo, a digladiar-se com os poderosos Omena, na
Usina
São Simeão, em desigualdade de forças e de dinheiros.
Decidiu que não iria combatê-los
de peito aberto, Descobriria um atalho, um ou mil
artifícios para vence-los, e, quem sabe um dia, derrotaria a todos eles, os
emplumados almofadinhas que tinham empregados, cujo serviço exclusivo era
abanar ,
por horas, um leque imenso, sobre a mesa dos usineiros para que os mosquitos de
Murici (em Murici até os mosquitos são vorazes) não mordessem a tez rósea de
seus
donos: Quem sabe um dia, com a alavanca da política, não seria Renan Calheiros,
o
dono único, coronel de porteira fechada, das terras e do engenho, onde seu pai,
humilde, costumava ir buscar o dinheiro da cana, para pagar a educação de seus
filhos, e tirava o chapéu para os Omena, poderosos e perigosos. Renan sonhava
ser um
big shot, a qualquer preço. Vendeu a alma, como o Fausto de Goethe, e pediu
fama e
riqueza, em troca.
Quando você e o então deputado
Geraldo Bulhões, colegas de bancada de Fernando
Collor, aproximaram-se dele, aliaram-se, começou a ser parido o novo Renan. Há
quem
diga que você é um analfabeto de raro polimento, um intuitivo. Que nunca leu
nenhum
autor de economia, sociologia ou direito. Os seus colegas de Universidade
diziam
isto. Longe de ser um demérito, esta sua espessa ignorância literária, faz
sobressair, ainda mais, seu talento de vencedor. Creio que foi a casa pobre,
numa
rua descalça de Murici, que forneceu a você o combustível do ódio à pobreza e a
ser
pobre. E Renan Calheiros decidiu que se a sua política não serviria ao povo em
nada,
a ele próprio serviria, em tudo. Haveria de ser recebido em Palácios, em
mansões de
milionários, em congressos estrangeiros, como um príncipe, e quando chegasse a
esse
ponto, todos os seus traumas banhados no rio Mundaú, seria rebatizados em
fausto e
opulência. "Lá terei a mulher que quero, na cama que escolherei. Serei amigo do
Rei."
Machado de Assis, por ingênuo,
disse na boca de um dos seus personagens: "A alma
terá, como a terra, uma túnica incorruptível". Mais adiante, porém, diante da
inexorabilidade do destino do desonesto, ele advertia: "Suje-se gordo! Quer
sujar-se? Suje-se gordo!".
Renan Calheiros, em 1986, foi
eleito deputado federal pela segunda vez. Neste
mandato nascia o Renan globalizado, gerente de resultados, ambição à larga,
enterrando, pouco a pouco, todos os escrúpulos da consciência. No seu caso nada
sobrou do naufrágio das ilusões de moço! Nem a vergonha na cara. O usineiro
João
Lyra patrocinou esta sua campanha com US 1.000.000. O dinheiro era entregue, em
parcelas, ao seu motorista Milton, enquanto você esperava bebericando, no
antigo
Hotel Luxor, av. Assis Chateaubriand, hoje Tribunal do Trabalho. E fez uma
campanha
rica e impressionante, porque entre seus eleitores havia pobres universitários
comunistas e usineiros deslumbrados, a segui-los nas estradas poeirentas das
Alagoas, extasiados com a sua intrepidez em ganhar a qualquer preço. O destemor
do
alpinista, que ou chega ao topo da montanha, e é tudo seu, montanha e glória,
ou
morre. Ou como o jogador de pôquer, que blefa e não treme, que blefa rindo e
cujos
olhos indecifráveis intimidam o adversário. E joga tudo. E vence. No blefe.
Você, Renan não tem alma, só
apetites, dizem. E quem na política brasileira a tem?
Quem neste Planalto, "centro das grandes picaretagens nacionais" atende no seu
comportamento a razões e objetivos de interesse público? ACM, que na iminência
de
ser cassado, escorregou pela porta da renúncia e foi reeleito como o grande
coronel
de uma Bahia paradoxal, que exibe talentos com a mesma sem cerimônia com que
cultiva
corruptos? José Sarney, que tomou carona com Carlos Lacerda, com Juscelino, e,
agora, depois de ter apanhado uma tunda de você, virou seu "pai velho",
passando-lhe
a alquimia de 50 anos de malandragem? Quem tem autoridade moral para lhe cobrar
coerência de princípios? O presidente Lula, que deu o "golpe do operário", no
dizer
de Brizola, e hoje "hospeda" no seu Ministério um office boy do próprio
Brizola? Que
taxou os aposentados, que não o eram, nem no Governo de Collor, e dobrou o
Supremo
Tribunal Federal? No velho dizer dos canalhas, "todos fazem isto", mentem,
roubam,
traem. Assim, senador, você é apenas o mais esperto de todos, que, mesmo com
fatos
gritantes de improbidade, de desvio de conduta, pública e privada, tem a quase
unanimidade deste Senado de Quasimodos morais para "blinda-lo". E um moço de
aparência simplória, com um nome de pé de serra, Siba, é o camareiro de seu
salvo
conduto para a impunidade, e fará de tudo, para que a sua bandeira, absolver
Renan
no Conselho de Ética, consagre a "sua carreira". Não sei se este Siba é prefixo
de
sibarita, mas, como seu advogado in pectore, vida de rico ele terá garantida.
Cabra
bom de tarefa, olhem o jeito sestroso com que ele defende o "chefe". É mais
realista
que o Rei. E do outro lado, o xerife da ditadura militar, que, desde logo,
previne:
"quero absolver Renan". Que Corregedor! Que Senado!
Vou reproduzir aqui o que você
declarou possuir de bens em 2002 ao TRE. Confira, tem
a sua assinatura: 1) Casa em Brasília, Lago Sul, R$ 800 mil, 2) Apartamento no
edifício Tartana, Ponta Verde, R$ 700 mil, 3) Apartamento no Flat Alvorada, DF,
de
R$ 100 mil, 4) Casa na Barra de S Miguel de R$ 350 mil E SÒ. Você não declarou
nenhuma fazenda nem uma cabeça de gado!! Sem levar em conta que seu apartamento
no
Edifício Tartana vale, na realidade, mais de R$ 1 milhão e sua casa na Barra de
São
Miguel, comprada de um comerciante farmacêutico, vale R$ 3.000.000.
Só aí, Renan, você DECLARA POSSUIR
UM PATRIMONIO DE CERCA DE R$ 5.000.000. Se você,
em 24 anos de mandato, ganhou BRUTOS, R$ 2 milhões, como comprou o resto? E as
fazendas, e as rádios, tudo em nome de laranja? Que herança moral você deixa
para
seus descendentes. Você vai entrar na história de Alagoas como um político
desonesto, sem escrúpulos e que trai até a família. Tem certeza de que vale a
pena?
Um vez, há poucos anos, perguntei
a você como estava o maior latifundiário de
Murici. E você respondeu: "Não tenho uma tarefa de terra. A vocação de
agricultor da
família é o Olavinho". É verdade, especialmente no verde das mesas de pôquer!
O Brasil inteiro, em sua maioria,
pede a sua cassação. Dificilmente você será
condenado. Em Brasília, são quase todos cúmplices. Mas olhe no rosto das
pessoas na
rua, leia direito o que elas pensam, sinta o desprezo que os alagoanos de bem
sentem
por você e seu comportamento desonesto e mentiroso. Hoje, perguntado, o povo
fecharia o Congresso. Por causa de gente como você! |