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Vejam se não
se trata de multiplicar a
pobreza.....
Carlos
Alberto Sardenberg*
O Jornal da Globo do
último dia 23 mostrou ao País uma
personagem e uma situação que exigem
cuidadosa reflexão sobre como estão
funcionando, ou não, os programas
sociais.
Reflexão difícil. Avaliar
uma política de governo requer cálculos
para medir sua eficácia e verificar se o
dinheiro público está sendo aplicado
corretamente. Mas é
difícil fazer contas quando se encontram
pessoas lidando com a pobreza no seu
dia-a-dia.
O repórter José Raimundo
encontrou, no Recôncavo Baiano, Joselí
Sacerdote: mulher, 27 anos, nove filhos.
Situação triste, mas, infelizmente, até
bastante comum em diversas regiões
brasileiras. O incomum aparece em
seguida: Joselí, que está grávida do
décimo filho, tem casa própria,
inteiramente construída com o dinheiro
do salário-maternidade.
Sim, é isso mesmo: ela
tem filhos para receber o
auxílio-maternidade, sua principal fonte
de renda.
Como se chegou a isso?
A Previdência paga o
auxílio. A trabalhadora rural só precisa
provar que mora e trabalha na roça. Pode
requerer o benefício a partir do oitavo
mês de gravidez e até a criança
completar cinco anos. Neste caso, a
beneficiária recebe o pagamento dos
"atrasados" de uma só vez. Valor total
do benefício, para as trabalhadoras
rurais:
quatro salários mínimos por gravidez. Em
dinheiro de hoje, R$ 1.400.
Dos nove filhos, Joselí
já recebeu o benefício referente aos
sete primeiros. Tem direito a mais três,
por dois já nascidos e pela gravidez. Se
esperar mais um pouco, já pegará o novo
mínimo, elevando o valor total para R$
1.520 por filho, ou R$ 4.560 no total,
um dinheirão no Recôncavo Baiano.
Ela faz uma espécie de
poupança para receber três de cada vez.
Acumulado, esse dinheiro já lhe permitiu
comprar o material e levantar a casa em
que vive. Uma casa de dois quartos (o do
casal e o das crianças), mais
sala-cozinha, de alvenaria e telhas.
Para a região, um triunfo familiar.
Numa primeira abordagem
lógica, parece que tudo está
funcionando. Dizem os economistas que as
pessoas agem racionalmente e sabem
avaliar corretamente as
relações custo/benefício em que se
envolvem diariamente.
Joselí age assim. Qual a
renda que pode tirar de seu trabalho
rural? Por volta dos R$ 100 ao mês, um
pouco mais, um pouco menos. Em nenhuma
hipótese, portanto, conseguiria juntar
os R$ 4.560, que é quanto vai receber
pelos três filhos cujos benefícios ainda
não solicitou, se esperar pelo novo
mínimo de R$ 380.
Mais ainda: considerando
esse valor, o benefício total de R$
1.520 em um ano equivale a uma renda
mensal de R$ 126, um pouco mais do que
Joselí conseguiria trabalhando na roça.
No limite, portanto, não trabalhar e ter
um filho por ano é a opção mais
racional.
Joselí ainda faz a coisa
certa quando, tendo alguma outra renda
em casa, deixa "acumular" filhos para
requerer três benefícios de uma vez. Ela
aproveita, assim, os aumentos anuais do
salário mínimo sempre acima da inflação.
Está capitalizando sua poupança com
"juros" reais bastante remuneradores. De
novo toma a opção econômica mais
racional.
Mais ainda: as imagens do
Jornal da Globo mostraram que Joselí não
gastou o dinheiro com futilidades. Ela e
as crianças aparecem vestidas com roupas
muito pobres, não se vê nada de
extravagante ali. Ela levantou a casa,
deu um teto para sua família. De quebra,
movimentou a indústria e o comércio de
material de construção.
Joselí Sacerdote não é
uma aproveitadora. É uma heroína
brasileira. Ou alguém acha
que uma mulher opta alegremente por ter
um filho por ano?
Conclusão: está tudo
muito errado. Se a melhor opção para uma
mulher pobre é ter um filho por ano,
isso quer dizer que deu tudo errado, no
plano individual e no social.
Joselí está tornando sua
pobreza permanente e multiplicando a
pobreza com seus filhos. Sua estratégia
tem limites: a um determinado momento,
as necessidades dos filhos, em número
cada vez maior, serão superiores aos
ganhos obtidos com cada gravidez. E ela
cairá no pior dos mundos: com um monte
de filhos e sem renda para cuidar deles.
Além disso, sua saúde
provavelmente vai falhar.Até quando ela
poderá seguir tendo um filho por ano?
Mesmo considerando a hipótese terrível
de que ela pode levar sua estratégia por
mais uns cinco anos, até que filhas em
idade de procriar a substituam nessa
roleta, estamos diante de uma
desesperada tragédia familiar. Num
determinado ponto mais à frente, haverá
uma enorme família mais pobre que a de
hoje. Termina em desesperança.
Do ponto de vista de
políticas públicas, o resultado é o pior
possível. Programas
sociais destinam-se a tirar as pessoas
da pobreza. Estes não apenas mantêm a
pobreza
no médio prazo, como a multiplicam.
Estimulam o crescimento demográfico em
meio a
uma pobreza crescente.
Programas de distribuição
de renda devem criar incentivos para que
as pessoas escapem da pobreza.
São gastos que o governo
faz para aliviar de imediato a situação
das famílias mais pobres, mas também
para levar as pessoas a buscarem meios
de melhorar de vida de maneira
consistente. Uma bolsa vinculada à
manutenção das crianças na escola faz
sentido. Supõe-se que a educação será o
instrumento de avanço social.
É exatamente o contrário
do que ocorre com o auxílio-maternidade
nas regiões mais pobres do interior.
Multiplica a pobreza e praticamente
obriga as mulheres a permanecerem na
pobreza, pois quem pode educar-se e
trabalhar tendo um filho por ano?
Finalmente, essa política
provoca um aumento permanente da despesa
da Previdência. Haverá cada vez mais
mulheres (e suas filhas e suas netas)
reivindicando o benefício.
Há muito o que mudar.
Desde logo, o salário-maternidade
deveria limitar-se à mulher empregada
que se licencia do emprego para ter o
bebê. Para a mulher que não trabalha se
pode dar um auxílio, mas limitado.
Os chineses dão prêmio
para os casais que só têm um filho - e
esta, no caso, não é uma má idéia. Para
um filho, um auxílio-maternidade de R$ 1
mil. Para o segundo, nada.
E fica aqui o exemplo de
uma situação a recomendar a reflexão
sobre a eficácia dos programas sociais.
O IBGE informa que o
rendimento médio do trabalhador
brasileiro nas principais regiões
metropolitanas foi de R$ 1.072 em
dezembro. A R$ 380, o mínimo será algo
como 35% dessa renda. Pelo interior
afora, onde o rendimento do trabalho é
bem menor, será a opção econômica mais
racional buscar benefícios do governo do
que buscar trabalho.
*Carlos Alberto
Sardenberg é jornalista
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