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EMOTION TB É MSG

 

Sergio Rodrigues

 

20.08.2004 |  A essa altura do pagode virtual, todo mundo já se viu frente a frente com um emoticon, mas ainda deve haver quem não ligue o nome à coisa: emoticon é um neologismo da língua inglesa formado pela junção das palavras emotion + icon, isto é, emoção + ícone ou símbolo. Filho da internet, também chamado de smiley, emoticon vem a ser qualquer uma daquelas figurinhas graciosas – ou irritantes, dependendo do ponto de vista – compostas engenhosamente com caracteres de digitação, com as quais boa parte dos internautas gosta de temperar suas mensagens eletrônicas. Cumprem, dizem, uma função semelhante à da linguagem corporal no bate-papo ao vivo, suavizando a “fria” comunicação escrita.

Como se sabe, o emoticon mais comum é o sorridente :-) e seus parentes próximos, como o chocado :-o e o tristonho ou emburrado :-( Essas figurinhas simples deram início à série e têm até certidão de nascimento: teriam sido propostas, segundo versão que circula pela internet e até hoje não foi desmentida, em 19 de setembro de 1982 por Scott Fahlman, estudante de ciência da computação da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, EUA. De lá para cá a brincadeira atingiu níveis bem mais altos de sofisticação – ou de ridículo, dependendo mais uma vez do ponto de vista –, como se pode ver nesta representação de Homer Simpson: ( 8(1)

Entusiastas dos emoticons – entre os quais não me incluo, é bom que fique claro – estariam desculpados se dissessem que eles chegam bem perto de realizar de forma intuitiva e quase infantil o velho sonho da linguagem universal, diante do qual fracassaram redondamente todas as tentativas eruditas, como a do volapuque e a do esperanto. É um argumento curioso, embora o adjetivo “universal” perca força quando se sabe que as figurinhas tiveram que ser “traduzidas” no Japão. É sério. Lá, quando quer sorrir, o internauta não digita :-) e sim ^_^

E por que toda essa cultura emoticônica agora? Simples: porque não falta quem veja em tais figurinhas um ícone (o trocadilho é voluntário) eloqüente da decadência da cultura escrita. Para esses apocalípticos, o emoticon seria o símbolo mais acabado de toda uma maligna linguagem cifrada desenvolvida exclusivamente para a comunicação online e que inclui ainda uma série quase infinita de abreviações – para ficar no domínio do português, estamos falando de coisas como qq (qualquer), msg (mensagem), tb (também), tc (teclar), vc (você), rs (riso) etc. Não é pequeno o número de pais que se angustiam ao descobrir que seus filhos só conversam assim com os amigos na internet. Ficam preocupados porque acreditam estar diante de mais uma prova daquela catástrofe longamente anunciada: a transformação definitiva de nossa bela língua em vinagre.

Felizmente, não é nada disso. Tudo indica que emoticons e abreviaturas podem ser usados à vontade na comunicação escrita informal, sem qualquer contra-indicação ou efeito colateral. Desde o Romantismo, pelo menos, e até outro dia mesmo, quando as cartas praticamente caíram em desuso, adolescentes suspirosas gostavam de enfeitar as margens de suas missivas com corações estilizados, e nem por isso mergulhamos na barbárie. Se alguma coisa os emoticons e abreviaturas mudam em nossa postura diante da língua escrita, é para o bem: aprendemos que é possível ter com ela uma relação lúdica, que todos nós – e não apenas escritores cascudos – temos licença para brincar, deformar, moldar as palavras e outros sinais gráficos segundo nossas conveniências de expressão. Diante da sisudez esterilizante do ensino tradicional, não é pouco.

Não, eu nunca enviei uma mensagem enfeitada com smiley, mas isso é questão de gosto – quem sabe de geração. Longe de me lançar num poço de pessimismo, porém, as convenções irreverentes da comunicação na internet me inspiram uma agradável expectativa. Aguardo o dia em que alguém usará todos esses novos ingredientes numa obra-prima literária que até então não teria sido concebível. Por que os emoticons não dariam poesia? Se a internet ainda não disse a que veio nesse terreno, e se é realmente canhestra a maior parte da badalada “literatura blogueira”, paciência. Em termos de tempo histórico, a farra mal começou.

srodrigues@nominimo.ibest.com.br


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