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GLOBALIZAÇÃO:
PROCESSO, IDEOLOGIA E RESPONSABILIDADES
Vicente
de Paula Oliveira(*)
O
fenômeno da globalização, que atualmente caracteriza a economia
internacional, pode ser entendido como processo e como ideologia. Em
primeiro lugar, como processo, pela intensificação das relações
comerciais, pela amplitude dessas negociações e, finalmente, pela
mudança do conceito de crescimento dos países. Como ideologia, pelo uso,
às vezes capcioso, que muitos fazem para propor a legitimação de
medidas neoliberais.
O
rápido avanço tecnológico levou as nações a um paradigma de
desenvolvimento diferente e a alteração no cenário político as
conduziu a uma nova etapa da História. Além disso, a presença
estratégica das empresas transnacionais nos negócios do mundo, a maior
interdependência entre os países, a diminuição relativa do poder dos
estados quando confrontado com o das organizações mundiais e a
conseqüente formação de blocos regionais como resposta a esse
enfraquecimento, constituem os aspectos mais visíveis da nova economia
mundial.
A
inserção das economias nacionais na arena internacional define a agenda
dos estrategistas do mundo todo. E nessa corrida já se pode notar alguns
vitoriosos: o Japão e a Alemanha, (que juntos com os Estados Unidos
formam o grupo mais poderoso do mundo, o chamado "G-3").
A
globalização, em si, reflete o interesse das empresas privadas de poder
atuar, cada vez mais, em escala mundial. E o principal agente dessa
atuação é exatamente a organização multinacional ou transnacional,
cuja somatória de poder cria uma nova economia internacional, diferente
da convencional. As vendas mundiais da GE ou da GM, por exemplo, são
superiores ao PIB de muitos países em desenvolvimento.
No
caso brasileiro, um estudo da CEPAL, órgão das Nações Unidas para a
América Latina, indica a presença marcante de empresas transnacionais no
setor manufatureiro. Elas são majoritárias em capital, emprego e
produção nos ramos da indústria química, transporte, material
elétrico, metalurgia, mecânica e alimentos; controlam as chamadas
indústrias tecnologicamente dinâmicas e detém cerca da metade da
produção de bens de consumo e de capital. No caso dos bens
intermediários, por exemplo, sua participação é de mais de um terço.
Do
ponto de vista dos países periféricos, a globalização ou
mundialização da economia, não deve ser confundida com a simples
abertura para o exterior. Ela vai além disso, refletindo a efetiva
participação do país nos negócios mundiais, sem deixar de lado a
defesa e a proteção dos legítimos interesses nacionais. Por outro lado,
não se deve confundir a empresa multinacional ou transacional com a forma
mais avançada ou mais refinada do capitalismo. Esta se caracteriza,
ultimamente, pelas idéias neoliberais no campo da política e, em termos
econômicos, por conferir ao mercado a responsabilidade total pela
resposta à clássica questão do que, como e para quem produzir. A
empresa multinacional é somente o agente responsável pela ação. E é
aqui que a globalização pode ser entendida como processo e como
ideologia.
Na
globalização, as demandas dos mercados interno e externo se somam. Do
ponto de vista dos países em desenvolvimento, não há mais produção
tipo exportação. Tudo é para ser oferecido ou vendido para o mundo. A
Embraer, por exemplo, não faz diferença entre o avião produzido para o
Brasil daquele que é feito para ser utilizado nos demais países. É a
mundialização dos mercados.
O
conceito de espaço econômico, mais importante que o de espaço
geográfico, também ganha relevância na economia globalizada. Valendo-se
do conceito de otimização do controle corporativo, a localização
industrial passa a ser definida em função daquele espaço e não mais
deste. A CNN International, por exemplo, caracteriza com perfeição esse
fenômeno, pois tem sua sede de jornalismo em Atlanta, nos Estados Unidos,
mas transmite notícias do mundo para todo o mundo.
Com
a ampliação do fenômeno da globalização, acabou surgindo um novo
paradigma produtivo-tecnológico, cujas características mais visíveis
são a modificação no elenco dos insumos, a reformulação dos processos
produtivos e algumas reviravoltas em conceitos e procedimentos
organizacionais. Aqui, o resultado do novo modelo administrativo foi uma
severa diminuição dos escalões intermediários.
No
campo da política e da economia, as nações efetivamente inseridas no
palco dos acontecimentos internacionais estão buscando margens mais
amplas, tanto de lucro, caso do Japão, como de poder, caso dos Estados
Unidos, via aparato militar. Conseqüentemente, nas empresas surgiram
novas linhas políticas, alterando completamente os conceitos de
maximização de lucros, de minimização de riscos e de otimização do
controle corporativo global. Inovação e controle, mundialização dos
mercados, descentralização geográfica da produção são as palavras de
ordem.
Fruto
da constante alteração produtivo-tecnológica mundial acabaram surgindo
nas economias nacionais alguns efeitos perversos, tais como insuficiente
geração de emprego, inchaço das atividades informais e um
distanciamento dos níveis de remuneração entre as atividades
tradicionais e as de ponta, problemas que mesmo as economias maduras têm
enfrentado com dificuldades. O desemprego é um deles.
Assim,
mesmo perante uma realidade marcada pela globalização e pela presença
intensa das idéias neo-liberais, baseadas na onipotência do mercado, é
preciso planejar. O Brasil, ou antes, nós, os brasileiros, não podemos
ser irresponsáveis perante o futuro. Face ao poder ampliado das multis,
as nações procuram se agrupar como resposta às forças que lhes são
adversas. Da União Européia ao NAFTA, do Pacto Andino ao Mercosul, os
estados nacionais procuram meios de contrapor barreiras ao novo poder
mundial daquelas empresas. E, internamente, mesmo as nações mais
desenvolvidas trataram de forçar o entendimento entre as forças
econômicas domésticas para impulsionar o progresso.
A
propósito, é interessante relembrar uma vez mais o notório caso
japonês, onde a presença do Governo reforça a coesão e oferece as
condições mínimas para o desenvolvimento de setores estratégicos da
economia nacional. No caso brasileiro, que nos interessa de perto, se é
imperioso desfrutar dos benefícios da globalização, é um dever nos
organizarmos para isso. É necessário um projeto nacional de
desenvolvimento, capaz de transformar em objetivos e metas aquilo que o
país quer ser no futuro. É um exercício de política e de economia de
formulação complexa, pois, muitas vezes, é preciso conciliar interesses
conflitantes, tais como liberdade e disciplina, consenso e dissenso,
distribuição e concentração de renda etc.
Assim,
para aproveitar as vantagens e os benefícios da globalização, uma
proposta sensata de projeto talvez fosse a de utilizar como
idéia-síntese a inserção concreta e definitiva do país na economia
mundial. Para isso, além daquilo que já temos, como a estabilidade
macroeconômica e a tradição da diplomacia política, precisamos cumprir
com nossas responsabilidades: há necessidade de elevados investimentos em
educação e treinamento, reformas institucionais que facilitem o caminho
do desenvolvimento e, finalmente, adaptação, modernização
tecnológica, reformulação administrativa e atuação em termos mundiais
por parte da empresa nacional. Obviamente, com o respaldo de aplicados e
agressivos negociadores vindos da diplomacia econômica.
NÃO FAZ O
PROGRESSO NÃO DOMINA A LINGUA
Vicente
DE PAULA Oliveira(*)
O
Dep. Aldo Rebelo talvez perca tempo com seu projeto, ainda que muita
gente, e eu também, estejamos do lado dele. Sua iniciativa de promover,
proteger e defender a língua portuguesa contra o uso indiscriminado de
termos estrangeiros, uma vez transformado em lei, poderá ter o mesmo
destino de muitas leis que, no Brasil, acabam não pegando, como,
por exemplo, a que obrigava exibição periódica do filme nacional, ou a
norma do Código de Trânsito que proíbe parar em fila dupla.
São
quatro as razões dessa provável perda de tempo, uma fundamental e três
acessórias. A razão fundamental é que quem não produz desenvolvimento
e cultura não domina a própria língua. Não tem como dar o recado. As
razões acessórias são o neo-colonialismo, a babaquice e a preguiça.
Esta, a mental.
Quem
constrói o progresso cria os termos apropriados às suas invenções ou
inovações. Quem não lidera o processo não tem como nomear as coisas.
Não tem como dar o recado. E nós, que estamos nesta segunda categoria,
ao copiarmos manifestamos sempre a maldita vontade de continuarmos na
condição de neo-colonizados, não valorizando a própria língua. O
popular mouse, instrumento indispensável no microcomputador,
ilustra bem o que estamos dizendo. Ao ser criado, seus inventores optaram
pelo que lhes era mais fácil, a aparência. Como ele tem a forma e a
aparência de um rato, deram-lhe no idioma original o nome com mais
propriedade, que numa tradução simples seria camundongo ou rato. Os
hispânicos, que prezam mais sua língua do que nós o Português, o
chamam ratón (rato). Nós, por preguiça, preferimos manter a
coisa no original mesmo, isto é, mouse.
A
desgraça maior, porém, não esta aí, mas em outros casos. O famigerado midia,
termo que os políticos gostam de usar e os que mexem com informática
também, é uma grotesca versão da pronúncia inglesa do termo latino media
que quer dizer meio. Ou seja, estamos usando uma palavra latina
vertida da sua pronúncia em outra língua, no caso o inglês. Não seria
mais adequado, não fossem a frescura, a babaquice e o desejo de
permanecer (neo) colonizado, falarmos em meios de comunicação?
Há
outros modismos chocantes para quem quer usar, na comunicação do
dia-a-dia, o idioma do país. Pois não é que agora, com a ajuda dos
narradores da televisão ou do rádio, estamos trocando a virgula por
ponto. Assim, acham mais bonito, por exemplo, falar seis-ponto-sete,
quando o certo seria seis-vírgula-sete. A regra na nossa língua
recomenda o uso da virgula. Mas, de novo, não valorizamos o que é nosso.
Preferimos, talvez por algum complexo de Peter Pan, permanecer sempre
crianças, perdão, sempre súditos de alguma metrópole.
Aqui
em São Paulo, além de publicitários empanzinados de falsa cultura e
incorporadores imobiliários espertos, até os mecânicos, funileiros e
pintores de automóveis estão com mania de colocar nomes em inglês, como
se fossem receber em dólares ou trabalhar no mercado internacional. Até
que seria bom se eles estivessem na vanguarda da exportação de serviços
mas, infelizmente, não é o que ocorre. Por pura babaquice, no Itaim
oferecem o tune motor service e na Avenida Santo Amaro anunciam o Paint.
Acredito que devam fazer a regulagem de motor ou pintura de veículos. E o
que dizer da Vila Nova Conceição? Ali certamente os moradores, babás,
empregadas, vigilantes e porteiros são todos versadíssimos no idioma de
Shakespeare, pois, por onde ando, só vejo sale, off, parking, bread,
office building e outras tantas frescuras.
A
principal razão de tudo isso é que não lideramos o progresso, não
criamos cultura, não produzimos desenvolvimento. Estamos a reboque de
tudo. Não reconhecemos nossos próprios valores. E certamente não será
uma lei (projeto bem intencionado, diga-se de passagem) que irá nos
livrar do mal. Nossa salvação está em outra parte. Na educação, no
progresso, na nossa capacidade de criar cultura e de valorizar a que
temos. De promover desenvolvimento e de fazer o progresso. De dominar
novas tecnologias. Como já fizemos no futebol, por exemplo.
A
esse respeito, permitam-me uma ligeira digressão para comentar um
fenômeno curioso que vem acontecendo na linguagem futebolística, onde,
até há pouco a tecnologia nacional dava as cartas. Levamos quase
60 anos para dominar e transformar aquela linguagem mas, ao que
parece, estamos prontos para abdicar. E, desta vez, não para os ingleses,
inventores do ludopédio, mas para os americanos, que não o apreciam e
falam em soccer. Locutores esportivos já andam esbanjando
bobagens, tentando iludir os incautos: basta ouvir as transmissões pela
tevê e lá vem as justificativas para algum delay no som, o
convite para uma partida de beach soccer, nosso manjadíssimo
futebol de praia, e outras esquisitices. Pelo andar da carruagem, é quase
certo que voltaremos a falar em goal keeper, center foward, center
half, wing etc.
Xenófobo?
Não. E sei também que qualquer língua é um organismo vivo, portanto,
sujeita a influências de outras línguas. Não chego perto de Policarpo
Quaresma que, entre outras glorificações das coisas nacionais, queria o
tupi-guarani oficializado como língua nacional. Não vou tão longe. Mas
confesso que gosto das coisas brasileiras, da cultura brasileira e, como
Olavo Bilac, da língua portuguesa: "Última flor do Lácio,
inculta e bela,..."
Mesmo
os mais radicais defensores da globalização não querem um mundo único,
homogêneo, raso, igual. Vislumbram um mundo mais próximo, integrado,
onde as culturas regionais sejam valorizadas, cultivadas e respeitadas. A
propósito, é pedagógico o exemplo da
Espanha:
ali 40 anos de Franco e obscurantismo não foram suficientes para eliminar
as culturas regionais da Andaluzia, da Catalunha ou da Galicia. No
pós-franquismo, o Rei Juan Carlos sabiamente não só autorizou, como
estimulou o renascimento das línguas de cada região. Para
restabelecer corretamente o galego, foram buscar no vizinho Portugal as
raízes de alguns vocábulos esquecidos ou perdidos na ânsia franquista
de só permitir o uso do castelhano.
Todos
sabemos que quem tem o ouro faz as regras. Os países centrais (Estados
Unidos à frente, com o idioma inglês) mandam. E não pedem passagem.
Aliás, aqui nem é preciso. Mas, apesar disso, poderemos dispensar a
proteção legal para o idioma se formos capazes de produzir
desenvolvimento e criar cultura. Para tanto, precisamos formular e
executar um projeto nacional de desenvolvimento que, reafirmando nossa
capacidade como nação, nos restituísse a auto-estima e nos permitisse
conduzir nosso destino. Transformando-nos em agentes da História e
impedindo-nos de permanecer como meros caudatários e pobres coadjuvantes.
Nesse
projeto, a educação, necessariamente, entraria como prioridade nacional,
como um bem estratégico para o progresso e o desenvolvimento. Em seguida,
com igual ênfase, viriam o apoio e o fomento ao progresso científico e
tecnológico. E, se tudo isso acontecer, a língua estará salva e poderá
prescindir de leis e regulamentos para sua proteção e florescimento.
Ajudaremos a construir o progresso, teremos orgulho da nossa
brasilianidade e poderemos dar nosso recado. Em bom e sonoro
Português.
INTEGRAÇÃO,
COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
Vicente
de Paula Oliveira(*)
A
Associação das Universidades da Região Norte-AURN, de Portugal, promove
anualmente cursos de verão abrangendo interessante, chamativa temática,
atraindo pessoas de todo o Brasil. A organização está nas mãos da Dra.
Eugénia Pacheco, dinâmica e articulada executiva do programa. Estive
presente a um deles, em Braga, para saber mais sobre o processo de
integração da Europa e ali, convivendo e interagindo com professores,
empresários de portes diversos e pessoas da mais variada espécie,
visitando empresas, instituições e lugares, pude observar muitas coisas.
Muito particularmente, a equação que junta integração com cooperação
e produz desenvolvimento.
Na
Universidade do Minho, fundada em 1973, tudo é novo, a começar pela
juventude de Helena Guimarães, de Estela Vieira e Carlos Alberto Pereira.
A primeira, professora-coordenadora do Curso; os outros dois,
responsáveis pela logística e coordenação administrativa do evento.
Gente moça por todos os lados, como os alunos, obviamente. Mas também de
espírito jovem, como os professores, pesquisadores, e o pessoal de apoio.
Entre aqueles, quase todos muito bem titulados noutros países da União
Européia-UE ou, surpresa, nos Estudos Unidos! O edifício da Escola de
Economia e Gestão, parte de moderno conjunto arquitetônico que é o
campus de Gualtar, é funcional, de bom gosto e elegante.
O
Distrito de Lamaçães, na cidade de Braga, onde se localiza o campus,
mostra o rejuvenescimento daquele país --nas ruas, nas obras públicas,
nas construções em geral, nos edifícios cujas obras estão por
concluir-se, nos shoppings centers etc. O símbolo desse ar jovem, numa
cidade tão antiga quanto acolhedora, é Jacinta que, com sua graça e
brejeirice nos atendia nos fins-de-tarde em um dos bares da Praça da
República.
Pessoas,
educadas e encantadoras, e coisas materiais, novas e em reconstrução,
revelam uma atitude de vida, de progresso. Portugal está vivo de novo,
ressurgindo no cenário europeu. Em Lisboa, a ponte Vasco da Gama, sobre o
Tejo, e o Parque das Nações, um formidável centro cultural e comercial
(shopping mall) e uma futurística estação de trem e metrô, onde, em
1998 foi realizada a Feira Mundial, são os marcos do novo tempo.
Tudo
isso tem a ver com o renascimento do país. E, ao que parece, Portugal
teve dois: um primeiro, em 1.974, com o 25 de abril, o Movimento das
Forças Armadas que derrubou o salazarismo e colocou o país, novamente,
no caminho da História, e o segundo, doze anos depois, com a entrada na
UE. Aquele trouxe a consciência do despertar e com esta vieram a
reconstrução e o desenvolvimento. Quanto Portugal entrou para a
Comunidade Européia em 1.986, o PIB per capita do país representava
apenas 53% da média dos países da UE. Hoje, com os esforços do governo
e da iniciativa privada, aquele percentual é de 75%.
A
União Européia é, por natureza, uma união de Estados ou um,
simplesmente, um Estado, cujo objetivo pragmático é a criação de um
grande mercado (europeu) e a manutenção da coesão econômica e social.
Nesse contexto, fica claro que o chamado Estado-Nacional perde poder de
jurisdição, restringindo-se sua atuação às questões relacionadas com
tributação e orçamento.
São
três os pilares, os fundamentos da União: mercado, moeda e coesão. O
mercado é a própria razão prática da existência da integração.
Quanto à moeda, lembremo-nos que não se forma um mercado sem uma moeda.
De preferência, forte e estável, que promova os negócios sem as
desvantagens de indesejáveis variações cambiais entre os
países-membros. Daí a criação do euro em 1.999. A coesão destina-se a
reforçar os fundamentos da política externa e a ajudar a promover a
defesa, do ponto de vista militar.
Em
Portugal, os recursos da UE estão por toda parte. Na construção civil,
nas pousadas, nos edifícios públicos, nas Escolas. Tudo com cheiro de
novo. Reluzindo. Em Braga, os que participaram do curso ficaram alojados
na Residência Universitária Lloyd Braga, construída com recursos do
Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional. (Há outros três fundos da UE
destinados a reduzir as disparidades regionais.) Com um Produto Interno
Bruto-PIB da ordem de us$ 100 bilhões, o país paga anualmente à União
Européia 1,27% do PIB e recebe 4,27%. É o segundo maior beneficiário da
União. O primeiro é a Irlanda, que recebe 6% líquidos por ano.
A
economia portuguesa, de 1.986 até 1.990, cresceu à uma taxa média anual
de 4,6%, que se arrefeceu consideravelmente no quinquênio seguinte,
ficando em torno de 1,1%. Entre 1.996 e 2.000 o crescimento observado foi
substancialmente maior, em torno de 3,3%, com inflação contida na taxa
dos 2,5%. Nesse conjunto de números que delimita o cenário
macroeconômico, as empresas portuguesas dão mostras do dinamismo que
atualmente as caracterizam: grandes investimentos no país e fora dele em
diversos setores, que vão das telecomunicações ao abastecimento
(grandes cadeias de supermercados) ou dos serviços bancários ao
entretenimento. Dados do Banco Central do Brasil revelam que no ano 2.000
Portugal foi o terceiro maior investidor no país, aplicando aqui cerca de
us$ 2,5 bi.
É
surpreendente esse país que nasce de novo, quase 1.000 anos depois da sua
fundação. No entanto, é bom que se diga: nem tudo são flores nesse
cenário de otimismo. O novo ainda convive com o velho, o rico com o
pobre, numa grande proporção: a elevada renda per-capita da capital vai
diminuindo quando se chega ao Alentejo ou nos Açores. E a integração
também tem seus problemas, como os da coordenação entre as políticas
monetárias e orçamentária, os da relação entre os países
participantes da união monetária e os não participantes (Inglaterra,
Suécia, Dinamarca e Grécia estão fora do euro) ou, ainda, os da
harmonização fiscal no campo dos rendimentos de capitais. Ou seja, a UE
ainda é um projeto inacabado, cujo futuro depende da evolução da
conjuntura, onde os problemas ganham os contornos de uma eventual crise de
confiança da opinião pública, da obtenção da coesão social e das
flutuações do mercado interno.
Mas,
é inegável que integração e cooperação constituem parte substancial
do processo de desenvolvimento. E neste momento de angustias, incertezas e
turbulências no Cone Sul, seria bom pensarmos (e atuarmos) no sentido do
fortalecimento e ampliação do Mercosul. Para que possamos sonhar, no
futuro próximo, com o almejado desenvolvimento dessa sofrida América
Latina.
__________________________
CULTURA EXPORTADORA E DESENVOLVIMENTO
Vicente
de Paula Oliveira (*)
Reflexo
da necessidade de integrar-se plenamente na economia globalizada na qual
vive o mundo, seria interessante para o Brasil desenvolver e consolidar
uma cultura de exportação. Com efeito, no final dos anos 90, alguns
passos foram dados com a criação da Camex-Câmara de Comércio Exterior,
da APEX-Agência de Promoção das Exportações e, finalmente, com o
estabelecimento da meta a ser alcançada em 2.002 para o volume das vendas
brasileiras para o exterior, no montante de us$ 100 milhões. Seguiram-se
medidas de ordem cambial e creditícia para favorecer a maior integração
da economia brasileira na economia mundial, mas é bem verdade que, em
termos conjunturais, os exportadores ainda se ressentem de uma
"sintonia fina": acertos nos custos de operações portuárias,
definição da profundidade e alcance das medidas fiscais, programas de
crédito para exportações etc. A recente demissão do Ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio é um marco significativo da luta
pela implantação de políticas capazes de favorecer o estabelecimento
definitivo daquela cultura e o alcance da meta, hoje um pouco
"esquecida".
A
consolidação da chamada "cultura exportadora" implica não só
no engajamento de todos os setores da economia no esforço de ampliação
das vendas de produtos nacionais para o exterior, mas, sobretudo, num
esforço persistente e continuado, de presença constante nos mercados
mundiais. Em quantidade, qualidade e preço. Não basta apenas exportar o
excedente. É preciso exportar sempre, ou seja, o país precisa comprovar
que é um participante permanente e confiável do comércio mundial e não
apenas um exportador de "commodities", alguns manufaturados do
momento e curiosidades.
Estudos
sobre o desempenho do setor externo brasileiro, levados a cabo pela
Fundação Getulio Vargas e pela Câmara Americana de Comércio, revelam
que a disposição do país de vender ao exterior é reduzida. De fato,
nos últimos anos a participação das exportações no PIB vem
diminuindo: de 9,0% em 1.993 ela cai para 6,5% em 1.998, tendo chegado ao
valor mais baixo em 1.996 quando alcançou apenas 6,2%. Apresentou valor
relativo maior em 1.999 e 2.000, muito mais pela queda do PIB do que por
aumento real do valor exportado. Por outro lado, o ritmo de crescimento
das exportações também é lento, o que agrava o problema do déficit na
Balança Comercial. De um saldo positivo de us$ 15,2 bilhões em 1.992
salta-se para um déficit de us$ 6,4 bilhões em 1.998, período em que as
exportações cresceram apenas 43%, enquanto que as importações quase
que triplicaram. Entre 1.999 e 2.000 os déficities permaneceram, ainda
que em escala menor: us$ 1,3 bi e us$ 700 mi, respectivamente.
Em
termos de composição da pauta, observa-se que o país continua um grande
exportador de produtos agrícolas (café, soja, cacau, suco de laranja,
carne, fumo), grupo que representa mais de 1/4 do volume total exportado
nos últimos anos (passa de uma participação de 21,4% em 1.992 para
25,8% em 1.998). Enquanto isso, o grupo dos industrializados cai de 66,4%
para 62,4% no mesmo período, representando atualmente apenas 56,8%.
Quanto
aos parceiros comerciais, o Brasil avançou, em termos percentuais, apenas
no Mercosul. O principal destino das vendas brasileiras para o exterior
continua sendo a União Européia, enquanto que os Estados Unidos tem
absorvido um quinto delas. O crescimento das exportações para o Mercosul
se deu em detrimento do mercado asiático.
A
dura realidade é que a participação brasileira nas transações
econômicas mundiais que oscilava em torno de 1%, apresentou queda
significativa nos últimos anos. A magnitude e as facilidades operacionais
do mercado interno tem inibido o empresário nacional e tornam pouco
atraentes eventuais esforços para vender no exterior, ampliar o volume
já conquistado ou, mesmo, para conquistar novos mercados. A taxa de
abertura da economia brasileira (relação entre a soma das exportações
e importações com o PIB) é igualmente baixa (27% em 1.999) se comparada
com a de outros países como México, China e Coréia.
A
adoção de medidas políticas destinadas a fortalecer e a consolidar uma
mentalidade exportadora, tão importante para a economia brasileira e tão
necessária para o país, em termos de crescimento e distribuição de
renda, de criação de empregos ou mesmo da busca do equilíbrio nas
contas externas e da estabilidade monetária, faz parte do esforço para
inserção definitiva do país na economia mundial, protegendo-o de uma
fatal fragilização. Esta é a parte do Governo.
Há
uma série de outras ações que compete ao empresariado nacional
desempenhar. Em primeiro lugar, vencer o desafio do provincianismo e
superar a barreira (ou as comodidades) do mercado interno. Vivemos num
mundo globalizado, onde a mundialização de marcas e mercados é
notória. Então, é preciso produzir simultâneamente para o mercado
interno e para o mundo, com escala e qualidade. E além das
"commodities" e dos produtos agrícolas tradicionais, é preciso
desenvolver marcas nacionais de alcance mundial, como se está fazendo com
os aviões da Embraer ou como se tenta fazer com o guaraná. O sapato
masculino nacional poderia fazer o mesmo e as confecções femininas
também.
Um
outro ponto a merecer atenção (e ações) é o da mobilização da
pequena empresa brasileira para o comércio internacional, permitindo-lhe,
com a atuação no setor externo, obter ganhos de escala, melhoria de
qualidade, ampliação de horizontes empresariais e lucros. Estima-se hoje
que a participação da pequena empresa brasileira nas atividades do
comércio internacional não passe de 2%. O comércio internacional
poderia possibilitar-lhe responder em 2.002 por uma participação da
ordem de 10% do montante exportado pelo Brasil.
Finalmente,
a ALCA. Nesse caso, seria interessante deixarmos de lado o passionalismo e
enxergar na proposta uma oportunidade de substituirmos as importações .
. . dos Estados Unidos, não tentando concorrer com eles, mas participando
ativamente do mercado americano.
Vale
a pena aprofundarmos a discussão.
Provincianismo
e Miopia no Comércio Exterior
Vicente
PAULA Oliveira(*)
Vi
(e ouvi) pela televisão, no horário político, a catilinária do PC do B
contra a ALCA. Entre outras coisas, dizia que aceitar a proposta
norte-americana era vender o Brasil mais uma vez. Mistificação,
demagogia ou desinformação? Pregação ideológica acho que não era. As
coisas relacionadas com integração econômica internacional, formação
de blocos econômicos regionais, papel das entidades internacionais de
regulamentação das transações mundiais, de crédito e de fomento e, de
resto, qualquer assunto levado ao público, devem ser tratadas com
seriedade. Analisadas com maior profundidade e divulgadas com mais
respeito.
A
proposta da ALCA vem no bojo das relações do país com os Estados
Unidos, hoje, e desde muito tempo, um dos nossos principais compradores.
Nos últimos sete anos exportamos para aquele país, em média, cerca de
us$ 10 bilhões por ano (us$ 13.366 milhões em 2.000). É o nosso segundo
mercado. O primeiro é a União Européia, com uma média de us$ 13 bi.
Números
nada desprezíveis, como se vê. Mas que poderiam ser maiores. No entanto,
antes de chegar lá é preciso superar barreiras de variada espécie:
proteção dos mercados (caso dos EUA), e subsídios agrícolas (caso da
UE). A luta brasileira nos foros internacionais e junto a mercados
específicos tem rendido frutos e, ao que parece, nos colocam no caminho
certo para o aumento das exportações. Que tem sido pífias quando
comparadas com outros países até de menor porte. De 1.994 a 2.000 as
vendas brasileiras para o exterior cresceram apenas 27%, enquanto que, no
mesmo período, as importações aumentaram quase 70%.
Na
reunião da OMC-Organização Mundial do Comércio, realizada em meados
deste mês em Doha, no Catar, foram seis os temas fundamentais ali
discutidos: melhores condições para a exportação de produtos
agrícolas, práticas anti-dumping, patentes farmacêuticas, têxteis,
questões ambientais e investimentos e defesa da concorrência. Nos dois
primeiros temas, os Estados Unidos aliaram-se ao Brasil, ainda que no caso
do encaminhamento das discussões das práticas anti-dumping subsistem
problemas no seio do governo norte-americano. O importante, porém, é que
mesmo com a feroz resistência da União Européia, aprovou-se a
extinção gradual dos subsídios, em que os países do chamado Primeiro
Mundo gastam a bagatela de us$ 1 bi por dia. É isso mesmo, us$ 365
bilhões por ano. Em benefício do comércio internacional, houve
conciliação e política: a extinção gradual foi aprovada com um
pequeno adendo.
No
caso das patentes farmacêuticas, a vitória foi também dos "da
ponta de baixo". A tese brasileira saiu vencedora ao ser aprovada a
moção segundo a qual os países tem, em certos casos, o direito de
suspender a proteção às patentes para atender necessidades de saúde
pública.
Mas,
voltemos aos números. Como se disse no inicio, as exportações
brasileiras e, de resto, a própria participação do país na economia
mundial tem sido pífia. Nossa corrente comercial com o exterior é
irrisória (menos de 1%). Nossa balança comercial vem apresentando
sucessivos déficities: em 2.000 foi de us$ 700 milhões, com um movimento
de venda e compra da ordem de us$ 55 bi em cada sentido. Já dissemos, e
não custa repetir, que as exportações são estratégicamente
importantes para a economia brasileira e necessárias para o país. Para
sustentar o crescimento, para ajudar a distribuir renda, criar empregos,
proporcionar equilíbrio nas contas externas e estabilidade
macroeconômica. O desenvolvimento econômico depende da nossa capacidade
de exportar.
Conseguimos
vitórias em Doha. Mas precisamos vencer internamente também. Vencer, por
exemplo, o fantasma do provincianismo e a doença da miopia.
Provincianismo é achar que o mercado interno é suficiente, por ser mais
fácil de atender. A miopia é não enxergar o mundo como ele é hoje,
isto é, globalizado. Esconjurar o fantasma e livrar-se da enfermidade
significa valer-se do mercado interno para alavancar vendas para o
exterior, aproveitando as economias de escala que ele proporciona.
Significa situar-se no mundo (e apenas geograficamente no Brasil) para
aproveitar as vantagens (e superar as desvantagens) da economia global.
Como está fazendo, vitoriosamente, a Embraer.
Quanto
à ALCA, sem passionalismos, mistificações, ou o que é pior, demagogia,
devemos enfrentá-la de frente, como fizemos com as questões que
discutimos na reunião da OMC. Examinando quais produtos poderíamos, com
competência, substituir nas importações que Estados Unidos fazem. O que
vender a eles, além de aço, suco de laranja e sapatos? E com isto,
assegurar acesso, em escala, ao mercado do grande irmão. Concorrendo na
economia global com as Philipinas, Taiwan, Coréia, China, Hong Kong,
Singapura. E não com os EUA, pois, em seu campo, eles são imbatíveis.
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– Vicente de Paula Oliveira é economista e sócio-diretor da
Decisa-Consultoria para Decisão Ltda., de São Paulo. Foi Diretor de
Pesquisas das Faculdades Integradas IPEP. e-mail
vicente.oliveira@terra.com.br
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