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Villas Bôas Côrrea
29.07.2005 |
Agora que sobrou lama para todo
mundo, com a ampliação da lista dos suspeitos de sujar
os dedos com os milhões arrecadados para o
financiamento de campanha através de trampas que
facilitam os saques ao cofre da Viúva, uma meia-trava
no exibicionismo e em outros excessos na abençoada
devassa da CPI dos Correios acionou o aviso para o
assanhamento dos salvadores da pátria que se ofertam
para o sacrifício de articular fórmulas de composição,
antes que a crise leve ao extremo da ruptura
institucional.
Os
mais discretos cochicham nos ouvidos disponíveis os sábios
conselhos da prudência. Outros, entremeiam o sigilo com
os vazamentos confidenciais à imprensa.
No
exemplo mais recente, o ilustre ministro Nelson Jobim,
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) deu o ar da
sua graça, depois de concluída a ronda de advertências
óbvias e de recomendações
do bom senso.
Mas,
pelo visto, com a velocidade com que o escândalo da
corrupção surpreende a cada dia com novas pilhas de
documentos e listas de suspeitos, a missão Jobim foi
atropelada pelas mudanças de cenário. Em impedimento
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ninguém mais
fala ou nunca cuidou a sério. Não interessa à oposição
nem passa pelas cucas ensandecidas do PT. Dispensável,
portanto, tanto os puxões de orelha quanto o desfile de
argumentos de transparente evidência.
Depois,
é a tal coisa: com todo o respeito ao presidente da
mais alta corte da Justiça, o caiporismo da coincidência
não favorece a sua missão salvadora. No mesmo dia em
que furou a capa da modéstia para a apresentação ao
distinto público da sua cruzada cívica, a mídia abriu
modestos espaços para o registro da sanção
presidencial à lei, aprovada pelo Congresso, que eleva
o teto salarial do funcionalismo para R$ 21.500 e, na
cascata da generosidade, emplaca o aumento dos ministros
do STF, claro que para o máximo, com recuo para 1º de
janeiro, com a bolada dos atrasados e a previdente
antecipação do reajuste para R$ 24.500, em 2006, daqui
a cinco meses.
Reconheça-se
que o ministro Nelson Jobim não fez nada escondido,
Cabalou á luz da publicidade os votos senadores e
deputados, contando com a colaboração entusiástica do
presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti, que
esfrega as mãos de ansiedade, esperando a hora em que
baixe a maré das denúncias que emporcalham o Congresso
para resgatar o seu compromisso eleitoral com o baixo
clero e, por baixo do pano, equiparar os subsídios
parlamentares ao teto dos ministros do STF.
O
ministro da Fazenda, Antonio Palocci e sua equipe de
sovinas devem estar iludindo a boa fé do povo com a
conversa fiada de cortes de despesas e de
contingenciamento de verbas orçamentárias para obras
de reconhecida urgência.
Sobra
dinheiro na poupança da forreta senhora. Não há outra
explicação para a seqüência de aumentos milionários,
com a abertura das comportas da represa pelo esforço
conjugado dos presidentes dos três poderes. Cinco mil
juízes, desembargadores, ministros estão com a vida
arrumada por dois anos. E no Legislativo, basta que o
deputado Severino acene para que as assembléias
legislativas e as câmaras de vereadores sigam o exemplo
que cai de cima como uma benção do céu.
Só
para o povão do salário mínimo e para os barnabés
– a escória dos servidores públicos, dos aposentados
e pensionistas – o governo chora miséria e ofende com
o reajuste anual de 0,01%, em desmentido às promessas
do presidente, de olhos cerrados e ouvidos moucos.
No
suspiro de alívio das reuniões da CPI, enquanto
examina o papelório do cateretê da roubalheira, o
presidente Lula continua a fazer a sua parte na arrumação
do governo, com os exageros que não consegue evitar.
Esta semana viajou todos os dias, passando o mínimo
tempo possível em Brasília. Por onde andou repetiu o
mesmo discurso com pequenas variantes: filho de pai e mãe
analfabetos, a única herança que recebeu é o nome
honrado, acima de qualquer suspeita. Item novo ou
retomado, a promessa de acabar com a corrupção “num
curto espaço de tempo”.
Enquanto
o presidente paparicava a popularidade nas andanças de
relações públicas do governo, em Brasília, no Salão
Oval do Palácio do Planalto, a ministra Dilma Rousseff,
chefe da Casa Civil, presidiu a primeira reunião
ministerial desde que assumiu a gerencia administrativa
do país. Função típica e intransferível do
presidente da República.
A
ministra Dilma Rousseff, na cadeira do ex-ministro José
Dirceu, defenestrado pela crise, assumiu de público: é
a presidenta em exercício do Brasil.
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