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O GOVERNO É O DONO DA CRISE

Villas-Bôas Côrrea 

 

26.03.2004 |  Das muitas advertências sobre a gravidade da crise que o governo criou e alimenta com nova trapalhada a cada dia, nenhuma mais preocupante do que a nota oficial dos profissionais do PMDB, aprovada em reunião de emergência da Comissão Executiva Nacional, ameaçando romper o acordo que garante a maioria parlamentar governista.

O PMDB não faz referência à possibilidade de uma retirada em massa, desocupando os espaços que abocanhou em complicadas negociações. Para simular um tom de seriedade à pantomima, emposta a voz no tom solene do seu presidente, deputado Michel Temer, e ronca a advertência do condicionamento do apoio do partido “a uma política que promova o crescimento, distribua a renda e gere emprego”.

Ou seja, exatamente tudo que Lula e seus ministros da faixa visível juram que estão fazendo, no esforço que emenda o dia com as madrugadas e que ninguém consegue enxergar. Lula manda, mas a turma não obedece.

Penetrando no picadeiro pelo buraco da lona, o PMDB posa para o eleitorado e executa o número forte do seu reduzido repertório.

A crise infla como bola de borracha soprada por bochechas de menino e espalha vírus por legendas menores e bem comportadas, como o PTB e o PP. O cateretê das siglas é a parte cômica do espetáculo. Pena que a população, na dura luta pela sobrevivência em tempos bicudos de recorde de desemprego – que encosta nos dois milhões da Grande São Paulo, segundo o índice de fevereiro, de aloucados 19,8%, medido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sociais –, não dê a mínima importância às angústias dos novos-ricos das mordomias e vantagens da opereta do Legislativo.

O governo é o dono da crise. Ou, para dar o nome do santo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Que começa a sentir as fisgadas na carne, emite sinais equivocados na avaliação das dificuldades e está perdido na escolha das correções de urgência aflitiva.

Na confusão da cuca, que se reflete na fisionomia cansada, no rosto que envelhece no mapa das rugas, num certo desleixo no vestir os ternos do estoque renovado ao assumir o mandato, há exatos um ano, dois meses e 26 dias, são nítidas as marcas da aflição. Prazo curto para engolir a euforia da campanha, a emoção que varreu o país, ofuscado com a esperança de um novo tempo com a primeira mudança do poder dos seus donatários históricos da banda conservadora para o outro lado, com a etiqueta de esquerda pendurada no pescoço e que descorou a tintura ideológica para o tom firme das suas bandeiras sociais. As reivindicações do estribilho do PT e mote dos discursos de quatro campanhas do torneiro mecânico, desde sua arrancada inédita como líder sindical, foram esquecidas na virada que não deu certo e começa a apresentar a sua conta. As próximas pesquisas medirão o tamanho do trambolhão da popularidade do presidente e do desgaste do governo, salpicado pelas manchas da desconfiança.

Não há como dissimular a inquietação que se aproxima do desespero. A máscara de otimismo, as mágicas da valorização de êxitos setoriais pelos truques dos marqueteiros, escorrega na face suada e tensa, em desabafos que valem por confissões. “Nós não somos tão ruins quanto nos acusam nossos adversários nem tão bons quanto pensávamos que fossemos” – queixou-se o presidente, como quem se desculpa no improviso que costuma pregar peças ao fluente orador, que está dissipando o seu capital.

A oposição faz o seu papel, estimulada pelos desacertos oficiais em véspera de campanha para a eleição de 5.565 prefeitos e mais de 70 mil vereadores ainda este ano. Apoquenta o governo com a munição que recebe de mão beijada. A exumação da CPI dos Bingos, estrangulada pela manobra das lideranças dos partidos governistas recusando-se a indicar os seus representantes, não apenas parece provável como se espreme como a única saída do governo. Além do risco de uma decisão favorável do Supremo Tribunal Federal (STF), reconhecendo o direito constitucional da minoria de convocar CPIs com um terço de assinaturas dos membros do Senado ou da Câmara, o escândalo do Waldomiro Diniz, ex-assessor do chefe do Gabinete Civil, ministro José Dirceu, encorpa e apodrece com as denúncias que espirram das várias fontes incumbidas da apuração das falcatruas do pivô da crise ética.

Justificativas e desculpas do governo desabam como barracos nas enxurradas. E prenunciam novidades para os próximos dias.

As pontas da laçada fecham no governo. No presidente que se preparou para ganhar a eleição; não para governar. Na sua resistência a remover o entulho dos erros, como o monstrengo dos 35 ministros e secretários e na inapetência para ler, analisar processos, projetos e documentos antes da decisão, improvisada no estilo oral da sua intuição.

“Livro não ensina ninguém a governar” – sentenciou o presidente, em estimulante recado à juventude que alisa os bancos escolares.

Certamente que a experiência da vida é mestra de respeito. Mas, a aprendizagem de oitiva não é suficiente. Da mesma maneira que o conhecimento superficial dos problemas do país nas viagens apressadas não dispensa o estudo sério das alternativas, antes da decisão consciente e correta.

Livro não faz mal a ninguém.
 


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