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LULA POSA PARA BUSTO
Villas Bôas Corrêa
01.12.2006 |
A
torção no tornozelo
direito do
presidente Lula dói,
incomoda, prejudicou
a sua elegância e
impôs corte nos
compromissos
públicos de sua
compacta agenda nos
dois dias de
reuniões da Cúpula
África-América do
Sul, ontem encerrada
em Abuja, capital da
Nigéria. Não perdeu
nada de realmente
importante.
Pois
a reeleição é que
parece quebrou as
duas pernas, tomou
um chá de sumiço,
não é vista nem
falada. Uma das suas
apregoadas virtudes
– na verdade muito
mais para praga do
que para mezinha
milagreira para as
doenças crônicas da
democracia – é
exatamente a da
continuidade
administrativa de
governos
bem-sucedidos,
bafejados pelo apoio
popular e com sólida
base de sustentação
política.
Mas,
o
presidente-reeleito
usou e abusou da
beberagem e, com o
segundo mandado
emplacado, atirou
pela janela o vidro
vazio e rasgou a
fórmula. Nada mais
diferente e
contraditório do que
a improvisação do
primeiro mandato –
com o seu acervo de
escândalos, as CPIs
do mensalão e do
caixa dois, a
suprema vergonheira
da compra de
ambulâncias
superfaturadas pela
gangue dos
sanguessugas, o
desmonte do PT pela
onda de
irregularidades que
envolveram
dirigentes e
parlamentares, e a
paralisia
governamental que
começou na campanha
com a dedicação do
candidato, em tempo
integral, à caça ao
voto – e a transição
sem abalos, na mesma
toada, do mesmo
governo que bisa o
número aplaudido
pelo público.
Nem
se trata de uma
pausa para o
ajustamento de peças
da máquina submetida
à simples revisão e
troca de óleo. São
dois modelos
opostos, que batem
as cucas e se
afastam, desavindos
para sempre.
Estamos assistindo à
curiosa operação
dissimulada da
rejeição dos erros e
trapalhadas dos
quatros anos, nos
suspiros de seus
últimos 30 dias,
como quem exorcisma
a maldição da
herança legada a si
próprio, a começar
pela merecida
flagelação do
Partido dos
Trabalhadores. A
legenda da
bandeirola tingida
do vermelho que
desbotou, purga os
muitos pecados da
gula com que avançou
sobre o bolo do
serviço público,
ocupando milhares de
cargos em comissão,
sem a impertinente
exigência de
concurso; da
presença majoritária
em todos os
escândalos, como se
o anátema grudasse
na sigla.
Ainda
agora, no refluxo da
ressaca de denúncias
e do alarido das
investigações e
inquéritos que não
deram em nada, o
retardatário
deputado federal
Juvenil Alves,
eleito na chapa
petista de Minas,
foi novamente
recolhido à
carceragem da
Polícia Federal em
Belo Horizonte,
acusado de dar um
prejuízo de R$ 1
bilhão aos cofres
públicos (como se
constata, peixe
graúdo, de
respeitável
apetite). Deve
repousar por 120
dias, até a apuração
da denúncia de
coação de
testemunhas. Se
condenado, não
tomará posse.
Já
devidamente
advertido e
conformado, o PT
engoliu as
justificativas do
ministro Tarso Genro
e do presidente
interino, Marco
Aurélio Garcia (que
faz o papel de lenço
que guarda a vaga
não se sabe de quem
e se distrai com o
papel de bedel
severo da imprensa).
Choraminga a sua
desclassificação
para a segunda
categoria, com a
redução do
latifúndio que
desfrutou até agora
para um terreno em
loteamento na
periferia.
Lula
não tem pressa. A
geringonça dos 35
ministérios puxou o
freio de mão e
estacionou no
meio-fio: noves fora
os que sabem que
ficam, a turma em
cima do muro não
move um tijolo para
não escorregar no
ridículo.
O
governo da
divergência
estrebucha na vasca
da agonia. O governo
da convergência pede
passagem. Nele há
lugar para todos os
convidados e
pretendentes. Do
PMDB, freguês de
caderno, ao PDT, PC
do B e demais
combinações da sopa
de siglas. Se o PFL
quiser, não faça
cerimônia: é só
mandar um recado ou
acenar o lenço
branco.
Não
perturbem o
presidente que posa
para o busto na
galeria da glória
como “o maior
presidente da
história deste
país”.
editor@nominimo.ibest.com.br
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