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18.07.2005 |
Seja por temor aos
fantasmas da ditadura, seja porque a
democracia brasileira é planta tenra e frágil,
seja porque a economia vai bem, ainda que
o povo não esteja lá muito firme nas
pernas, não importa. Vamos combinar o
seguinte: o presidente não sabia de nada.
Um ex-ministro (Miro Teixeira) diz que
contou, um ministro (Ciro Gomes) garante
que fez o mesmo, um governador do PSDB
(Marconi Perilo) assegura que avisou e um,
vá lá, deputado (Roberto Jefferson) também
bate o pé que revelou tudinho ao ouvido
do presidente e viu até brotarem-lhe lágrimas
de constrangimento. Mas isso deve ser
cascata da grossa. Esse povo mente muito.
Até Jefferson enfiar o gogó no
ventilador, o presidente nunca tinha
ouvido falar de mensalão ou que outro
nome venha a ter a prática de semear
dinheiro para colher votos – y otras
cositas – pelos escaninhos do Congresso,
das estatais ou de agências de
publicidade que servem ao poder público.
Nada disso soube. Também jamais teve idéia
do que fazia Waldomiro Diniz na assessoria
mais próxima de seu amigo José Dirceu,
então poderoso chefe do Gabinete Civil.
Foi certamente um espanto, quando viu o
probo Diniz filmado tentando extrair um óbulo
da carteira de Carlinhos Cachoeira,
personagem que os jornais, no início do
caso, citavam como banqueiro do
jogo-do-bicho e hoje tratam como “empresário
do ramo de loterias”.
É feita de muitas surpresas a vida de um
presidente. Tanto que prometeram-lhe
apurar tudo e ele ignora que talvez nunca
se venha a saber a quem benfaziam as
malfeitorias de Diniz. O inquérito na Polícia
Federal parou como água de poço. Igual
destino deve ter a apuração sobre a
origem do dinheiro que Delúbio Soares, o
tesoureiro do PT, entregou à dona Divina
Inácio Naves para pagar os 22 alqueires
de terra que dela comprou. Mas isso o
presidente nem soube. Vai ver estava no
exterior defendendo sua tese de que os países
ricos devem pagar mais caro por suas
compras para ajudar os pobres, porque se
tem uma coisa que o presidente entende é
de economia.
Mais que Delúbio, que deixou dona Divina
às voltas com um embornal de dinheiro
vivo (“porque o cheque não podia
aparecer”), abriu um buraco de mais de
R$ 70 milhões nas contas do PT e tentou
se socorrer num banco, com o aval de um
sujeito que agora tenta trocar o que sabe
por uma temporada menor na cadeia. Mas o
presidente jamais suspeitou disso. Sequer
imagina, por exemplo, que seu partido
talvez tome mais dinheiro dos filiados do
que o bispo Macedo, dono de malas
voadoras, dos pobres para quem pede tudo o
que ganham em troca de riqueza terrena e
vagas no céu.
Não contaram ao presidente que aparelhar
o Estado, como fizeram o partido e o
comissariado petista, não podia dar
certo. Esconderam dele que isso era coisa
de regimes quase todos hoje restritos aos
livros de História. Também não lhe
disseram que Delúbio Soares e José
Dirceu oferecerem seus sigilos bancário e
telefônico à CPI era só um gesto, que
quando alguém tentasse botar a mão nessa
mina a bancada do PT iria morder e
arranhar. Afinal o truque é velho e
endereçado à platéia. Garotinho, o notório,
fez o mesmo no Rio quando a lama do caso
Silveirinha ameaçou molhar-lhe os pés.
Nem o comissário Luiz Gushiken, um dos
grandes defensores da reforma da Previdência,
contou ao presidente que o faturamento da
empresa da qual foi sócio cresceu 596%
desde o início do governo. E com o que
trabalha a empresa de que Gushiken fazia
parte? Com previdência privada. Mas, como
retirou-se da sociedade, o comissário não
ganhou nada, certo? Claro, ainda que a
empresa esteja instalada, em São Paulo,
na casa em que ele morava antes de
mudar-se para Brasília.
Certas coisas são apenas frutos da
coincidência. A imprensa é que tem mania
(seria vício?) de ficar revirando o lixo
alheio em busca de malfeitos. Pura
bobagem. Agora mesmo os jornais andam
verrumando histórias em torno do filho do
presidente. Só porque o rapaz, que se
chamava Fábio Inácio da Silva, ao ganhar
um pai presidente enfiou “Lula” no
meio do nome. A partir daí, mal-parado no
mercado de trabalho, criou uma pequena
empresa de informática e logo apareceu
uma gigante das telecomunicações que lhe
despejou no colo R$ 5 milhões em
investimento. Obra do acaso.
Claro que o presidente só soube disso
agora, depois que leu nos jornais. Aliás,
dia desses até disse que não sabe nada
do que o filho faz. E não é para menos.
O que ninguém diz é que o presidente não
sabe dessas coisas todas, nem das que lhe
contam, porque é pessoa muito distraída.
Afinal, só porque compra-se uma centena
de deputados a trinta mil pratas por mês
o presidente tem de parar o que está
fazendo para prestar atenção nisso? Quem
lembra das peladas de sábado à tarde no
campo da granja do Torto? Acabaram, não
é? Pois é. Alguns jornais disseram que
é por causa da dor no nervo ciático. Não
é, não. O presidente só parou de jogar
porque não faz idéia de onde largou as
chuteiras.
xicovargas@nominimo.ibest.com.br
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