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Este espaço estará reservado para a divulgação de matérias enviadas para o Brasil Brasileiro. Semanalmente será selecionado um escrito que  exemplifique o comportamento do brasileiro contemporâneo.

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CANSAÇO DOS VILÕES?

 
Zuenir



15.02.2005 |  Não sei se vocês têm alguma tese sociológica para explicar esse fenômeno de sucesso que é o Big Brother Brasil 5. Só não vale usar clichês baratos do tipo “reflexo de nosso estado mental”, “retrato de nosso povo”, “microcosmo do país”, para concluir que é um problema nacional – “só no Brasil essas coisas acontecem”. O programa não foi inventado por nós e existe no Primeiro Mundo. Li há algum tempo que nos EUA, depois de experimentar a resistência física, o medo e as conquistas amorosas, o gênero tele-realismo descobrira um novo tema: a cirurgia estética.

Em dois programas, oferecia-se aos candidatos uma radical metamorfose no corpo. Num canal, o objetivo era fazer com que cada um ficasse com a cara de seu ídolo. Por exemplo, Elvis Presley. Em outro, depois de desfilarem diante de uma equipe de especialistas – cirurgião, psicólogo, nutricionista e um técnico de esporte – os concorrentes recebiam um diagnóstico e a receita para a transformação física. A uma mulher de 40 anos, por exemplo, a banca examinadora decidiu operar o nariz, os lábios, o queixo, os dentes e os seios, além de uma lipoaspiração. Para isso, ela passou onze horas na mesa de operação.

Sem espelhos na casa durante três meses, o ponto culminante foi o encontro ao vivo dos encarcerados com seus parentes. Tudo diante das câmeras, evidentemente. “Eu sou sua mãe”, apresentou-se uma ao filho que não a reconhecera. “Eu sou fulana”, identificou-se outra. “O programa renuncia alegremente ao bom gosto, aos escrúpulos, à moral, à ética e ao senso de responsabilidade”, indignou-se o “Los Angeles Times”.

Acho que estamos longe disso. Mas eu continuo sem tese para explicar a versão nacional. Aliás, vejo pouco o programa. Na verdade, não gosto, embora como jornalista não devesse deixar de ver. Nós somos, ou devíamos ser, como os médicos, que não podem recusar-se a tratar de uma doença só porque ela não lhes agrada. Os pacientes de câncer estariam perdidos.

Vejo pouco, como disse, mas vi a noite em que o médico Rogério, o Gê, foi eliminado com 92% dos quase 30 milhões de votos, batendo um recorde de rejeição. Ancelmo Góis fez a comparação: é mais da metade dos votos que elegeram Lula (53 milhões). Com a agravante de que no Big Brother você paga para votar, embora cada um possa votar mais de uma vez.

Minha mulher, que assiste com mais freqüência, observou que na edição atual do programa há uma novidade, talvez motivada pelo prêmio, que dobrou, passando a R$ 1 milhão: em vez dos amassos e romances que eram comuns antes, à vera ou simulados, o que há agora é disputa pra valer, conflito o tempo todo. Nada de paz e amor. Fala-se o tempo todo que é um jogo – “nada de pessoal, estou apenas jogando” – mas é na verdade uma guerra com armação, traição e golpes baixos.

O mais curioso é que quem está perdendo é o “eixo do mal”, que era comandado pelo tal médico homofóbico e meio fascitóide, que num dado momento teria deixado escapar de brincadeira que chefiava o grupo dos “nazistas” contra o dos “judeus” (mas é preciso dar um desconto: vai ver que o ato falho era mais por ignorância do que por racismo). De qualquer maneira, o público está rejeitando os bad boys e preferindo o grupo dos politicamente corretos, liderado por um simpático e assumido gay, que parece ter grandes chances de ganhar o prêmio.

Desde a malvada Odete Roitman, criada por Gilberto Braga há quase duas décadas, até a Nazaré de agora, de Aguinaldo Silva, o público é fascinado pelas vilãs e vilões. Como se explica a rejeição de um bad boy de verdade? Será que a preferência pelos maus só acontece na ficção? Ou será cansaço de tanto ver os vilões vencerem na vida real?

Cartas para a redação. Com muitas teses.

P.S.: Escrevo antes do paredão. Se o co-vilão P.A. permanecer na casa, contra as expectativas, é mais uma “tese” que dança, a minha.


zuenir@nominimo.ibest.com.br

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